p r ó l o g o

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Bernardo Ferraz – Dez anos
Sete anos atrás. Férias de verão.

Meus olhos grudavam na paisagem pela janela do carro. Animais, serras, verde por todo lado. O privilégio de ver aquilo me fascinava. A sensação de descobrir mais sobre o mundo era mágica.

No colo, o caderno balançava. Bufei, frustrado. Tentava desenhar o pôr do sol, mas o carro em movimento não colaborava.

— Chegamos, pai? — perguntei pela centésima vez.

— Cegando, papa? — Beatrice, minha irmã de quatro anos, tentou me imitar.

Ela vivia repetindo o que eu fazia, às vezes irritante, mas quase sempre adorável. Cantava músicas de desenho animado a viagem inteira, desafinada e feliz.

Meus pais se entreolharam pelo retrovisor, sorrindo na sintonia melosa de sempre.

— Falta uns dez minutos, garotão. — disse meu pai.

Dez minutos?! Que tortura. Eu só queria desenhar a paisagem direito e fugir das cantorias de Beatrice.

Até que enfim, o carro estacionou.

— Terra firme! — comemorei, correndo para ver Bala no Alvo, minha égua.

Passei pela casa, cumprimentando parentes. Ao ver tia Serafina, deduzi que sua filha também estava por ali. No estábulo, um vestido e cabelos negros confirmaram minha suspeita: Emmaline Dolabella.

Falava sozinha com os cavalos. Louca. Adorável.

— Quem diria que a senhorita estaria aqui sozinha? — provoquei.

Ela se virou assustada.

— Qual é o seu problema, Bernardo?!

E começou a discussão habitual: ela me chamando de chato, eu lembrando que a ajudara a superar o medo de cavalos. Nossa amizade era estranha, mas funcionava. Se não podia vencê-la, me juntava a ela.

Fomos chamados para o almoço. Sentei ao lado do tio Ruffus, sempre o mais divertido.

— Depois preciso te contar um segredo. — cochichou.

Na varanda, ele revelou sua história: havia tribos canibais escondidas nas matas, além da cachoeira. Fiquei em êxtase. A área proibida pelo meu pai, afinal, tinha um motivo.

Corri contar a Em. Ela desconfiou, claro. Acabamos falando alto demais e nossas mães ouviram. Inventei que só queríamos desenhar e nadar na cachoeira. No fim, conseguimos permissão, desde que o mordomo Ciro nos acompanhasse.

Durante o trajeto, já planejava como despistá-lo. A Em me conhecia bem demais e logo adivinhou. Ofereci a Ciro um suco "especial" e, minutos depois, ele roncava ao meu lado. A consciência pesou, mas era tarde demais.

Eu e Em seguimos sozinhos até ultrapassarmos os limites marcados por meu pai. Andávamos de mãos dadas, e, apesar das broncas e ironias, havia algo especial em caminhar com ela.

Até que ouvimos batuques. Eram eles.

Observamos de longe, fascinados. Mas, quando tentei me aproximar, tossi. Fui descoberto. Corremos, mas ficamos encurralados. Coloquei Em atrás de mim, mesmo com seus protestos. Quando ela foi amarrada a uma árvore, o desespero tomou conta.

Antes que a lança fosse arremessada contra ela, uma voz conhecida ecoou. Meu pai apareceu com seguranças e Ciro, falando com a tribo numa língua que não entendi. Ele conseguiu nos tirar de lá.

Corri para abraçar Em, que ainda tremia.

— Você foi muito corajosa — disse a ela.

— Mas nossa aventura foi um desastre, não é? — murmurou.

— Eu amo aventuras. Mas amo muito mais te manter segura.

Voltamos em silêncio até a fazenda. Ao chegar, mamãe me abraçou, mas logo me deixou sozinho com meu pai.

— O quão encrencado estou? — arrisquei um sorriso.

Ele me encarou com reprovação.

— Você poderia ter morrido, Bernardo. Pior: colocou a vida da Em em perigo.

Foi como levar um soco no estômago.

— Eu só queria ser destemido como o senhor... — tentei explicar.

— Destemido não é se meter em perigo. Hoje eu tive medo, Ben. Achei que nunca mais veria meu filho.

Suas palavras pesaram mais do que qualquer castigo.

Preso a VocêHistorias para obsesionarse. Descúbrelo ahora