Mantive meu sorriso intacto por muito tempo. O mesmo sorriso que eu sempre tive em meu rosto, desde pequena. O sorriso que diziam aquecer as almas de quem olhava através dele, encher de luz e cor até os cantos, pontas e brechas mais sombrios da alma. Diziam para mim que eu tinha algo especial, um brilho. Um sopro de vida mais forte, uma necessidade inconsciente de espalhar alegria. Diziam que quando eu corria pelos salões, eu deixava um rastro dourado... e que quando passavam por ali, momentos mais tarde, sorriam. Diziam que quando eu cantava, o som de minha voz se misturava ao som dos pássaros e eles repetiam minhas melodias por horas, sem cessar. Diziam que os cachos dos meus cabelos eram as ondas do mar refletidas no céu da noite. Que a cor de minha pele refletia o entardecer alaranjado, que se agarra às últimas luzes do sol para se manter vivo. Diziam também que com certeza eu seria feliz, porque o sol pode até se esconder em dias cinzentos, mas JAMAIS deixa de aquecer e dar vida aos que estão ao seu redor. Estavam todos errados. Tudo sempre foi uma mentira, não foi? Rhaegar sempre foi uma mentira. Meu doce dragão. Era tão lindo, tão gentil, tão leal. Não era isso que ele era? Éramos uma família, e uma família sempre permanece unida, não importa o que aconteça. Ele era um sonho, sempre foi um sonho... mas também não passou disso. Não sei onde ele está. Não sei por quê ele se foi. Não sei por quê ele deixou Rhaenys sozinha, por quê deixou Aegon sozinho. Eu nunca soube. Nossos filhinhos, nossos amados filhinhos. Por que ele os deixaria? Estávamos sozinhos. Por que ele me deixou sozinha? Eu, Rhaenys e Aegon. Estávamos sozinhos em uma guerra que não era nossa, em uma rebelião que nós não causamos. Não foi minha culpa, foi? Não foi culpa de Rhaenys. Minha filhinha não fez nada, ela não fez nada, eu prometo. Deixem-na ir, eu os imploro! Por favor, deixem-na em paz! Ela é só uma menininha! DEIXEM QUE ELA VIVA! As palavras daquele dia ainda ressoam em mim. Quando eles entraram, aqueles monstros, aqueles monstros... Quando eles entraram, supliquei que a deixassem ir. Supliquei que deixassem Aegon vivo. Levem a mim, mas deixe-os em paz! Por um momento uma chama em mim se acendeu. Não encontraram Rhaenys. Procuraram naquele maldito quarto, mas não a acharam! Ela viveria! Ela poderia se esconder por dias... ela poderia. Sim, ela viveria! Meu amorzinho estava embaixo da cama de Rhaegar, tremendo. Eu disse a ela, momentos antes, que ficasse quietinha, que papai chegaria para nos tirar de lá. Que tudo ficaria bem. Mas eles a acharam... Escutei quando gritaram ordens. Escutei quando arrombaram a porta a chutes e empurrões. E eu escutei os gritos de Rhaenys mesmo estando um andar abaixo dela. Consegui sentir o medo da minha menina, consegui visualizar as cenas em minha mente. Eu os soquei, eu os mordi, eu os arranhei, eu gritei, eu chorei. Chorei quando senti que puxaram minha menininha pelo bracinho e quando ela gritou ainda mais alto, um som agudo que atravessou paredes e que dilacerou almas. Quando a primeira apunhalada veio, eu pensei que morreria junto a ela. O som da lâmina cortando a carne... Eu consegui sentir. Consegui sentir a dor dela em minha carne. E quando a segunda veio, e a terceira, e a quarta, e a quinta, e a sexta, e a sétima, e a oitava, e... Meia centena de golpes, eles disseram. Eu não saberia dizer. Depois de um tempo perdi a conta, mesmo que os monstros que me seguravam tivessem ficado em silêncio absoluto para que eu pudesse ouvir a sinfonia da morte de minha menina. O corpo pequeno de minha filhinha se tornou um pedaço de carne ensanguentado e sem vida e os homens que a mataram riram. Eles RIRAM. Também senti quando enrolaram a massa que antes foi minha filha e saíram a pesados passos do quarto. Minha alma destroçada tentou se agarrar às esperanças de salvar meu bebê, meu Aegon, mas ELE estava lá. Grande, mau e macilento, e enquanto aquela besta caminhava em minha direção, tentei recuar com meu bebê nos braços. Fui puxada por tantas mãos que não pude sair do lugar, não pude correr pela porta e procurar ajuda... Mas que ajuda eu poderia procurar? Não havia ninguém lá. Ninguém que se importasse. Aquele monstro arrancou Aegon de mim. Ainda lembro do último toque de sua mãozinha, de como ela estava quente e úmida. Aquele demônio... ele pegou meu bebê, meu bebezinho, enrolado em um paninho laranja. Aquele paninho era seu preferido, Aegon sempre parava de chorar quando eu o enrolava nele. Por um instante eu pensei que fossem me deixar pegá-lo uma última vez. Que fossem deixar ao menos que eu dissesse adeus; mas então aquelas mãos gigantescas seguraram meu filhinho pela cabeça. Meu bebezinho começou a chorar. Aquelas mãos grotescas o empurraram contra a parede com tanta força e... E meu bebezinho parou de chorar. Uma mancha vermelha não podia chorar. E eu também parei de chorar. Eu parei de gritar. Eu parei de me debater. Eu parei de viver. Aquele brilho que um dia disseram que eu tinha morreu com meus filhinhos. Quando aquelas mesmas mãos que mataram meu bebê me seguraram, não me importei. Quando aquelas mãos arrancaram os tecidos de meu vestido, não me importei. Quando aquelas mãos me empurraram em direção à cama, não me importei. Também não senti a pressão quando ele se se impulsionou contra mim. Não senti o cheiro quando ele se abaixou e sussurrou algo em meu ouvido, rindo. Não senti os toques quando suas mãos dançaram sobre mim, deixando marcas vermelhas. Eu não senti absolutamente nada. Um corpo não sente absolutamente nada sem uma alma. Eu estou indo encontrar vocês, filhinhos. Me desculpem por não ter conseguido salvar vocês. Me desculpem por não ter sido um herói com um elmo prateado, que rasgaria todos ao meio em um segundo. Eu pensei que tivesse encontrado meu herói, mas ele não estava aqui hoje. Não estava aqui já fazia muito tempo. Estou indo encontrar vocês, meus amores. Mamãe jamais vai sair de perto de vocês. Quando eu chegar, vou contar a história da Princesa Nymeria pra vocês, sei que vocês gostam. Posso cantar para vocês no jardim, o que acham? Estou chegando, meus filhos. Mas eu prometo: eles saberão. Algum dia, saberão. Vocês não serão esquecidos. Estou chegando, meus filhinhos. Esperem por mim.
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