A Mudança

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Desde quando a mamãe morreu, eu e o papai tentamos viver a vida da forma mais normal possível. Eu não tenho conseguido, mas escondo. Tenho medo de entristecer meu pai. Ele a amava muito, não quero preocupar ele com meus problemas.

Hoje de manhã papai acordou radiante, não tinha visto ele desse jeito há um bom tempo.

- Lia vem cá.- Ele me chama na cozinha.

- Oi pai.

- tenho que te dar uma ótima notícia.-Fiquei assustada ele parecia tão feliz, não entendi o porquê dele ter falado assim.

- Eu consegui uma transferência para High Garden!

- Ah... Que bom. Então vamos nos mudar?

- Sim! Acho que falei pra você sobre lá.

- Sim... você disse que conheceu a mamãe lá.

- É verdade. -Algumas lágrimas saíram de seus olhos, fiquei assustada.

- Pai... Por favor não chore.- supliquei a ele, doía vê-lo assim.

- Sim filha, é que são tantas lembranças.- ele se emocionava toda vez que lembrava dela, já era rotineiro para nós dois. Inclusive esse foi um dos motivos para nos aproximarmos mais, eramos só eu e ele, não tinhamos ninguém a mais pra nós apoiar- Sua mãe foi a melhor pessoa do mundo.

- Eu sei.- a morte dela doeu em mim, como um tiro no peito, não era esperada, ela vivia bem, amava cuidar de seu jardim, mas não conseguiu resistir ao câncer.

Nos abraçamos, eu enxuguei as lágrimas do papai e perguntei:

- Quando vamos nos mudar?

- Amanhã!- fungou por causa do choro- Vamos arrumar as malas.

Eu não me senti bem com a notícia, mas não queria ser uma estragar prazer, ele não devia se sentir assim, há muito tempo. Então tentei conter meus sentimentos aprendi muito bem a fazer isso desde a morte da mamãe, a minha maior preocupação era machucar o Pai. E talvez isso seja bom para mim. Na minha antiga escola não tinha nenhum amigo. Antes o meu melhor amigo Charlie estudava lá, mas ele foi fazer intercâmbio no Japão, agora nós falamos apenas por Skype. Sinto que nos afastamos muito, mais do que devíamos, por minha culpa, me afastei dos poucos amigos que tinha desde o que aconteceu.

Minhas malas estavam prontas. Era por volta de 16:30; fiquei olhando o céu da tarde e pensando se minha vida melhoraria ou iria piorar, se eu iria encontrar um cara legal, me casar. Na real, nunca me importei com isso, casar, ter filhos, "E se acontecesse o mesmo que aconteceu comigo?" vinha me fazendo essa pergunta há um tempo, não queria fazer meus filhos sofrerem, como sofri.
Na minha cabeça fazia muitas outras perguntas, "Será que também posso ter câncer?", "Se o papai morrer, o que eu faço?", " Qual é o meu propósito?", enfim, eram as mesmas perguntas, martelando na minha cabeça 24 horas  por dia.

Além de tudo, tinha problemas com meu corpo. Nunca gostei dele, sou morena, tenho cabelo bem cacheado, quadril bem largo, estrias e só tenho 1,57 com 16 anos. A única parte do corpo que eu não odiava, mas tinha certos problemas, principalmente com espinhas e cravos, era o meu rosto, tenho os olhos verdes, meus lábios são bem cheios. Sempre dizem que sou igual a minha mãe, mas dúvido muito, ela era modelo quando mais nova, achava que era por pena, "Oh, coitadinha, perdeu a mãe.", sempre foi meu sentimento.

No outro dia papai me acordou bem cedo para ajudar a levar os móveis para o caminhão da mudança. Papai sempre elogiou minha força, consigo levar os móveis facilmente, e me orgulhava , aliás uma das poucas coisa em mim que me dão orgulho. Me lembro de quando sofri bullying por causa da minha força desproporcional, no terceiro ano do ensino fundamental, os garotos diziam que era um menino, crianças são más, mas seus pais são piores, minha mãe foi reclamar com cada um deles, mas todos deram a mesma desculpa " São só crianças, elas não medem o que dizem!". Minha mãe ficou furiosa, nunca vi ela tão brava, então ela disse "Revide! Se quiserem te irritar, revide!". Depois disso um garoto, veio me irritar como sempre, então segui o conselho da mamãe, acertei um murro, em sua boca, o que fez cair dois dentes de leite de sua boca, e ao invés do menino se irritar, ele adorou, me achou o máximo, adivinhe quem era! Meu melhor amigo até hoje Charlie, não nos separavam por nada no mundo, mas logo quando mais precisava, ele foi para o Japão.

Enfim tinha levado tudo que precisava ao caminhão da mudança, fui tomar um banho,logo após, fui ao carro, confesso que senti meu olhos esquentarem e logo se encheram de água, passou um rápido flashback na minha cabeça de todos os bons e maus momentos naquela cidade, senti um grande peso sair das minhas costas, mas sabia que sentiria um pouco de falta. Vi que papai vinha em direção ao carro e enxuguei minha lágrimas rapidamente, para ele não perceber.

– Vamos Lia?!- estava tão animado que era patético, mas deixava feliz, pois só queria seu bem.

– Vamos!- respondi um pouco mais entusiasmada do que realmente estava, para ele não perder o ânimo.

Vi os prédios se transformar em árvores ao longo do caminho, e esse foi o meu possível adeus a cidade.

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I observe the changes of season in myself: I clearly change with them

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I observe the changes of season in myself: I clearly change with them.
- Clarice Lispector

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