― Você encontrou o quê?
A voz saiu cortada pela interferência tão comum dos telefones públicos. Era rouca, doce, e trazia em cada sílaba pronunciada a promessa dos beijos que viriam quando se encontrassem.
Ele repetiu, mais devagar, apertando a mão no plástico oleoso do receptor:
― Um bilhete de uma loja de penhores.
― Mas por que eu deveria me importar?
Ele sorriu ao reconhecer a típica indelicadeza que era intrínseca ao charme de Violeta. Limpou o suor onde a testa encontrava a borda do chapéu. Em poucas horas a teria nos braços. Ouviu na linha o choro ressentido do filho recém-nascido que ele conheceria naquela mesma noite. A garganta sentiu um nó que anunciava um choro de gratidão e felicidade, mas ele o engoliu e decidiu explicar para a esposa o que lhe acontecera apenas alguns minutos antes.
― Estava tomando um café aqui na estação antes de ligar e quando estava saindo encontrei o bilhete. A descrição do objeto e o valor estão borrados de café e não consigo saber o que é, mas vejo que o valor tem quatro dígitos.
O chiado agressivo de um trem partindo foi poderoso o suficiente para que ele não ouvisse a resposta. Decidiu cortar a conversa pela metade:
― A gente se vê à noite. Meu trem sai às sete. Estou com saudades. Acredita em mim?
A voz pareceu ainda mais doce quando disse: ― Sim, seu bobo, acredito. Eu também.
Ele estava prestes a pendurar o receptor no gancho metálico quando ouviu a advertência divertida e mandona da esposa.
― Não vá atrás de bilhete de loja de penhores e essas coisas...não inventa besteira. Você é curioso demais.
― Sim, senhora. ― ele mentiu, sorrindo. Complementou com uma verdade absoluta: ― Te amo.
E assim Fernando Prestes girou nos calcanhares e saiu da cabine telefônica, antecipando o encontro com a jovem que ele pedira em casamento dois anos antes, e de quem sentia uma saudade esmagadora quando precisava viajar a negócios. Fora um azar que o primeiro bebê do casal decidira vir ao mundo logo no meio de uma daquelas viagens, mas Fernando não passou nem um minuto inteiro lamentando o fato: a volta seria ainda melhor.
Enquanto cruzava a rua movimentada, seus pensamentos foram arrastados para o papel em seu bolso. Não a passagem do trem, e sim o tíquete da loja de penhores. Ao chegar à calçada oposta, parou e meditou. Não conhecia tão bem a cidade de Pinhal dos Santos, e precisaria de ajuda se quisesse chegar ao estabelecimento. As buzinas dos carros na rua atrás de si o despertaram de seu momento de dúvida e ele procurou o cenário ao seu redor por um rosto que pudesse auxiliá-lo. Sentado a uma mesa do lado de fora de um boteco havia um homem bem vestido lendo um jornal.
Fernando lhe pediu informações. O estranho explicou que o endereço procurado por ele era do outro lado da pequena cidade. Caminhando até um taxi, Fernando lembrou-se da advertência de Violeta, mas balançou a cabeça com divertimento. A esposa era daquele tipo de mulher preocupada em demasia, que sentia, pensava, analisava e falava demais. Ele se perguntara em diversas ocasiões de onde a jovem de cacheados e volumosos cabelos negros tirava energia para tanta atividade emocional. Já ele, bem, era um homem do intelecto, cuja curiosidade rendia boas histórias à mesa do jantar quando cercado de bons amigos.
No taxi, Fernando se acomodou no assento estofado e com cheiro remanescente de cigarro. Tirou do bolso o tíquete. NÚMERO 8-51. NOME estava em branco, assim como ENDEREÇO. Em DESCRIÇÃO estava o borrão de café, misturado à tinta negra da caneta, formando arabescos amplos e aquarelados que haviam deixado o papel endurecido naquele canto. VALOR: outro borrão. Ao aproximar o papel do rosto, achou ter distinguido um 8. Fernando sabia que lojas de penhores pagam dez por cento do valor do objeto, então poderia muito bem ser algo que valesse oitocentos ou mais.
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O Estranho
Short StoryAcompanhe a jornada aterrorizante de Fernando Prestes, um homem que acredita ter muita sorte quando encontra um bilhete de uma loja de penhores. Selecionado para a quarta edição da revista Pulp Fiction, da HomoLiteratus, "O Estranho" é um conto de...
