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Angústia

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Já passava das 0:00 quando Juliana acordou e se deparou com Emerson, seu namorado, pensando profundamente, sentado na cama. Geralmente um homem mais de fazer do que de falar, mais trabalhador braçal do que intelectual, ele vinha se comportando normalmente até aquela noite quente de outubro. 

-Anda amor, vem dormir, amanhã você vai ter que acordar cedo e vai ficar só os trapos...-Juliana já se preocupava com aquele olhar de Emerson, o que será que o afligia daquela forma?

-Não, eu só acordei pra beber água. Desculpa se te acordei.-Ainda assim Juliana sentia que naquele olhar havia mais do que apenas sede. 

Porém, decidiu que se ele não quisesse contar, que esperasse o momento certo. Voltou a dormir, tentando recapturar o sonho em que abria um bar, coisa jamais imaginou ter cogitado, mas no sonho, não parecia ser tão ruim. 

Já Emerson, não conseguia tirar aquela imagem da cabeça. A morte. O fim de tudo. O profetizado momento de descanso eterno, de sofrimento para os pecadores e de regojizo para os virtuosos, ou assim lhe tinham contado os padres e seus pais religiosos a vida toda. Mas e se não fosse daquela forma? E se houvesse apenas um vazio depois? Sem chance de volta, sem chance de descanso. Só o vazio. Só o cadáver.

Esse pensamento assombrava o rapaz agora, pois ao longo dos seus 21 anos, nunca tinha pensado demais a respeito dessa questão. Arrumava briga, como todo mundo, ao mostrar pra todo mundo suas opiniões políticas nas redes sociais, dizia ter lido livros que jamais sequer cogitou comprar, até mesmo decorou poemas para impressionar Juliana quando fizeram alguns anos de namoro, mas o que estava acontecendo naquela noite, era diferente. Um pensamento só seu, uma tese apenas sua, ou ao menos assim já começava a raciocinar. Só que nunca foi bom nisso. Precisava se acalmar.

Pensar na morte deixava Emerson com um nó na garganta. Sentia como se estivesse fazendo força para que algo saísse de si, sem sucesso. Uma enorme bola, um grito abafado que não poderia ser escutado por ninguém, mesmo que gritasse com toda a potência das suas cordas vocais. Foi para a cozinha beber água, mas a sensação não passava. "Bebesse um rio, não passaria", brincou consigo mesmo...

A primeira vez que tinha pensado na morte, Emerson tinha 6 anos. Estava decorando uma tabuada, aquele troço do demônio que lhe rendeu alguns puxões de orelha da sua mãe, na cama, quando dormia ao lado de seus pais. Pesadelos e insônia atiçam a curiosidade de uma criança. Quando a reza não parecia suficiente, restava fazer o que podia para não voltar a dormir. 

Então Emerson conheceu as grandezas. Milhares, dezenas de milhares, centenas de milhares, milhões, bilhões, trilhões...os titânicos decimais que parecem um infinito inalcançável para todos em uma vida. Começou a ver, que tinha apenas seis números, uma vivência muito pequena, uma quantidade muito pequena. Acordou a sua mãe:

-Mãe, a senhora quer viver até quantos anos?-Na época parecia muito importante, mais a quantidade do que a qualidade, ou o propósito, para ele...

-Sei lá, menino. Uns 100 anos já estava bom, agora vai dormir, vai.

-Ah, mãe, eu queria viver pelo menos um trilhão de anos...-Isso sim seria uma vida. Imaginava o tanto de figurinhas e álbuns que conseguiria colecionar.

-Então, estuda que tu consegue-Ela se virou e puxou as cobertas. Amanhã tinha de acordar cedo, e o diabo do menino com essas esquisitices.

Pelo resto da noite, Emerson visualizava uma espécie de estrada pequena. No qual, no fim, dava de cara com seu destino, uma pessoa,  quando chegasse perto dela, saberia que tudo estaria acabado. Era o seu limite, o seu ponto final. Não importava se corresse, ou mudasse de direção, no fim, o caminho desembocava no mesmo lugar. A distância era apenas aquela. Alguns pequenos passos. Passos tão pequenos, que mal conseguia sair do cômodo da casa. Estava preso num jogo que não venceria, e isso lhe dava vontade de chorar, de desistir ali mesmo. Esses pensamentos assombraram o pequeno menino, até que inconsolavelmente, no silêncio da madrugada, um choro não pode ser evitado. Porém, não havia ninguém para lhe consolar, nem nada que pudesse ser realmente dito para isso. Sentia-se dessa forma, e por fim, concordou consigo mesmo que era melhor deixar que o cansaço o vencesse, fechou os olhos e esperou dormir.

Porém, agora adulto, essa batalha estava muito longe de terminar assim, por mera desistência. Iria pensar num modo de contrapor essa sensação, de distrair-se suficientemente para tirar a morte da cabeça, iria vencer de uma vez por todas essa maldita bastarda, custasse seu sono e sua produtividade no dia seguinte de trabalho!

Tentou assistir televisão. Mas o barulho da sua mente sobrepujava as cores e as promessas de uma euforia distrativa, e desistiu da ideia. Tentou a Bíblia, mas não tinha paciência pra ler daquela forma. Não a lia fazia muito tempo, e suas palavras pareciam não ter mais tanto impacto assim. Tentou se exercitar, mas dentro de sua casa, não tinha como fazer barulho demais por causa de sua namorada. O pescoço continuava apertando, cada vez mais, como se houvesse uma corda em seu entorno.

Por fim, resolveu desistir. Sentia-se impotente, como aquela criança de seis anos uma vez se sentiu, como se nada pudesse mudar o fato de que morrer era certo. Não adiantava trabalho, não adiantava estudo, não adiantava até mesmo amor, tudo isso iria se desvanecer perante a chegada da "pessoa" no fim do seu caminho. A estrada era curta e não importava o trajeto. 

Por fim, resolveu culpar algo por aquele choro engasgado na garganta. Seria a pressão do trabalho? Trabalhar de segurança era algo realmente tranquilo, pelo menos em seu ambiente de trabalho, só observava as pessoas, não havia muitas ocorrências em seu local de trabalho? Juliana? Não, ela era perfeita pra ele. Ciumenta, insegura algumas vezes, mas ele também dava bola demais pra outras, por conta de seu físico. Mas apesar das brigas e crises, sempre estavam um apoiando o outro. Seus pais? Desde que eles morreram, não teve tempo de chorar a morte deles...não. Resolveu que seria homem, não choraria jamais, seria um desrespeito ter fraqueza por quem tinha o ensinado a ser forte. Tinha esse código pessoal. Uma tentativa fracassada de retomar o ensino médio, que mais uma vez falhou, alguns foras inconsoláveis e bem ríspidos, uma derrota em uma prova de concurso, derrotas, derrotas, derrotas...era disso que se tratava?

Enquanto se dirigia novamente para a cama, pegou as chuteiras que Juliana tanto reclamava sempre que ele deixava espalhado pela casa. Seus únicos triunfos eram saber jogar uma boa bola, pensava, e ter aquele corpo "bem feito", cortesia da academia e da pelada de finais de semana com os colegas e amigos. Pensava neles agora, será se pensavam na morte também? Provavelmente fariam uma piada tosca e ririam, e fariam ele rir também. Desejou que eles estivessem ali para enfrentar essa questão.

Mas no fundo, Emerson sabia que isso apenas o distrairia e o faria fugir da questão. Fosse o que fosse a causa daquela tempestade mental, não conseguiria mais dormir aquela noite. Apenas desistiu como fez quando criança, cerrou os olhos e esperou a morte se afastar da sua cabeça. 

Mas isso não aconteceu.

Então, furioso, resolveu se armar para vencer aquele inimigo. Já havia visto aquele jogo centenas de vezes na televisão, do herói e do vilão, da tática impossível, da solução aparentemente fácil para o nó górdio que se estendia à sua frente. Levantou-se com força, e embora Juliana tivesse se incomodado, decidiu não participar, tampouco questionar a loucura súbita de Emerson. "Só espero que não pegue uma faca e me mate", foi tudo que conseguiu aludir, em tom de brincadeira, antes de dormir novamente.

Emerson então, se preparava para a batalha. Procurava avidamente entre gavetas, pois estava há algum tempo sem cuidar de certas partes de si; partes ensinadas a ele, partes passadas por todo o carinho e atenção de sua professora, partes que ainda não explorava direito à sua vida toda. Elogios rasgados que havia esquecido de uma professora em seu ensino fundamental, a respeito de ser bom com rimas, ou algo assim. Uma esperança vã, claro, se apegar a um elogio de quase uma década atrás, mas esse era o mais perto que sua já confusa cabeça chegava de algo produtivo pra se estimular naquela noite. Então, passou a escrever poemas sobre a morte, afinal, se não tinha como escapar dela, pelo menos iria deixar registrado a sua insatisfação completa com aquele sistema cruel. 

Pequenos contos pessimistasStories to obsess over. Discover now