Prólogo

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            O som do piano melancólico ecoava pela casa de dois andares. Os dedos esguios se moviam lentamente pelas teclas brancas e pretas do piano vertical, produzindo uma música lenta e triste. Nathan Perkins parou de tocar o piano por um minuto, pegando o seu copo de uísque e dando um bom gole. Ele estava sobreo — mesmo que tenha acabado de voltar de um bar e bebido várias canecas cheias de cerveja — e queria se perder no mundo dos bêbados, somente para esquecer os acontecimentos daquela noite quente de verão.

            Sua mulher, Emily Perkins, estava em seu quarto, deitada na grande cama de casal, onde costumavam compartilhar noites de amor no início do casamento. Ela lhe disse, antes de se trancar no quarto, para dormir no sofá naquela noite. Eles tiveram uma briga feia naquela noite. E, apesar de ter odiado a ideia de dormir em um sofá e deixar a boa e grande cama de casal para ela, ele aceitou. Então, apenas para irrita-la mais ainda, começou a tocar o seu velho piano — presente de sua avó materna — e tomar uma garrafa de uísque sozinho. Tinham se passado algumas horas desde o momento em que sua mulher se trancara no quarto. Seu pulso estava começando a doer, pedindo para que parasse de tocar aquele maldito piano. A garrafa de uísque estava no final, e ele não sentia vontade nenhuma de ingerir mais bebida alcoólica. Então levantou-se do banco (que reproduziu um gemido baixo) e levou a garrafa até uma prateleira qualquer.

            Nathan voltou para o piano, somente para cobrir as teclas com um pano. Logo em seguida sentou-se no sofá, onde passaria a noite e provavelmente acordaria com uma boa dor nas costas. Apesar da briga que tivera com Emily — onde a mulher desabafava enquanto gritava que estava cansada de encontrar seu marido chegando em casa com um cheiro de bebida forte —, ele não estava triste, muito menos estressado. Nathan sabia muito bem que, de um lado, estava errado por não dar satisfação a sua mulher e chegar tarde da noite com cheiro de cerveja em seu paletó. Contudo, ele achava que sua mulher teria que estar acostumada. Nathan Perkins trabalha para a polícia, investigando casos de grandes casos de homicídios. Ele trabalha com isso desde que tinha uns vinte e cinco anos — agora ele completava os quarenta. Mas, mesmo com tantos anos de trabalho, ele nunca estava acostumado com as vítimas e nem com os seus parentes. Muita carga emocional. Sempre acabava em um bar, bebendo vários litros do liquido espumante amarelado.

            Porém, apesar de sempre ir a um bar para descontar suas emoções nas bebidas, naquela noite Nathan fora para um bar para receber o seu novo parceiro. Um jovem de vinte sete anos, alto, moreno, com um corte de cabelo bem feito — indicando que ia ao barbeiro de mês em mês. Elegante seria a palavra certa para descrever o seu novo parceiro, Freddie Jones. Foi um tanto desconfortável ir ao bar com Jones, ele chamava a atenção de muitas garçonetes. A maioria tentava mostrar seus peitos ­— cobertos por um uniforme indecente, que deixava tudo visível —, não só para o jovem Jones, como também para o det. Nathan Perkins, que tentava ao máximo não olhar para as meninas. Nathan não é nenhum homem bonito, mas, com certeza, tinha um corpo de dar inveja e rosto bem másculo — diferente de seu parceiro, que parecia ter congelado o tempo e parado nos seus dezoito anos de idade. Chamava um pouco a atenção de mulheres loucas por homens com corpo definido.

            A noite fora interessante, conversara bastante com seu novo parceiro — que parecia ter um ótimo senso de humor. Ambos eram bem diferentes, mas Nathan tentou ao máximo se enturmar com o parceiro. Ele não se lembra ao certo quantas canecas de vidro ele bebeu, mas provavelmente foi o bastante para que ele sentisse uma forte dor de cabeça. Ao final Freddie Jones fora embora em um táxi, seguindo pela rua principal e pegando um viaduto para chegar em sua casa. Já o det. Nathan Perkins caminhou até uma farmácia e comprou uma aspirina e tomou sem água, esperando que aquela dor de cabeça infernal passasse. Após perceber que sua dor havia diminuído, Nathan foi até o seu carro — um Corolla 2010 —, girou a chave e ouviu o motor roncar. Então logo foi para sua casa, deixando o estacionamento do bar.

            Quando chegou em casa, Emily Perkins estava sentada na poltrona — onde Nathan costuma ficar para pensar em alguma solução para algum caso — com as mãos juntas abaixo de seu queixo fino. Ele já sabia o que estava por vir. Quando sua mulher estava sentada em sua poltrona, significava que ela queria resolver algum problema e, geralmente, o problema era o seu próprio marido. Nathan suspirou, esperando ouvir os argumentos monótonos de sua esposa. Como havia previsto, Emily levantou da poltrona e iniciou a briga.

            — Você sempre chega assim em casa — ela dizia olhando o marido de cima para baixo. — Eu não aguento mais!

            Ele sabia que, se tentasse argumentar algo, levaria um fora que, provavelmente, lhe acertaria em cheio. Então permaneceu calado, tentando não se estressar.

            — Nathan, você passa o dia inteiro no trabalho... — ela prossegue, vendo que Nathan não iria dizer nada. — E, quando eu penso que vou ver você a noite, você vai para um bar!

            E continuou. Emily continuou a briga, mesmo que não obtivesse resposta alguma do marido. Utilizando sempre o mesmo argumento de que Nathan não era um marido presente e que, se caso tivessem um filho (graças a Deus, que não fui burra o suficiente para permitir tal coisa!), ele não seria um pai presente. No final, Nathan apenas assentia com a cabeça e a obedecia. Como um cachorro.

            Nathan deitou sua cabeça em uma das almofadas do sofá, sentindo o colchão duro daquele sofá. E com os pensamentos da última briga — e o efeito da bebida —, adormecera. 

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