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The Wall
"A professora não se questiona quando interroga um aluno" (Deleuze e Guattari, 1995, p. 7). É assim que Félix Guattari e Gilles Deleuze iniciam o platô "Postulados da Linguística". A professora e o professor não estão comunicando informações e conhecimento através de suas perguntas e testes, mas transmitindo palavras de ordem.
"Chamamos palavras de ordem não uma categoria particular de enunciados explícitos (por exemplo, no imperativo) , mas a relação de qualquer palavra ou de qualquer enunciado com pressupostos implícitos, ou seja, com atos de fala que se realizam no enunciado, e que podem se realizar apenas nele"(Deleuze e Guattari, 1995, p. 11)
Os alunos não falam de um lugar neutro, de um espaço vazio, de uma folha em branco. Eles falam precisamente como alunos, isto é, como invasores da linguagem que já está previamente demarcada, regrada e estabelecida. A ordem simbólica do conhecimento já existe. O aluno ingressa no regime de signos da sala de aula com um lugar já preparado, e isso vai muito além da cadeira em que ele senta. Jacques Ranciere, através de Aristóteles, define um escravo como "aquele que participa da comunidade de linguagem apenas sob a forma de compreensão, não da posse" (Ranciere, 1995, p. 32). E é precisamente essa a posição da aluna na sala de aula. Mesmo quando está escrevendo e criando, numa prova, o que torna válida a sua escrita é a sua capacidade de expressar a sua compreensão do que foi estudado. A professora pergunta o que já sabe, e censura o aluno quando ele responde algo diferente do já sabido. É a função da professora corrigi-lo, adequá-lo ao conhecido. O modo de se usar a palavra na sala de aula, combinado à distribuição dos corpos e do silêncio, visa operar uma transformação incorpórea nas pessoas que habitam esse espaço, assujeitando-as na função de receptáculo, de suporte e de reprodutoras da ordem simbólica. É essa operação que Guattari e Deleuze querem mostrar com o conceito de subjetivação. Para Deleuze e Guattari
"não existe significância independente das significações dominantes nem subjetivação independente de uma ordem estabelecida de sujeição. Ambas dependem da natureza e da transmissão das palavras de ordem em um campo social dado" (Deleuze e Guattari, 1995, p. 12)
O campo social já está dado. É como se a sala de aula operasse em dois níveis: um nível virtual-simbólico, no qual a relação entre professor, o mestre da palavra, e aluno, discípulo ignorante, funciona idealmente, do modo pelo qual devesse funcionar. E o nível material, esse o nível falho da realidade corriqueira, onde os alunos dormem, brincam, jogam bolas de papel uns nos outros e falam o que não tem a ver com a aula. Cabe ao professor fazer sua função de Outro e reapresentar o aluno à sua própria imagem simbólica, seja através de ameaças, bilhetes ou notas baixas. Quanto mais o aluno se aproxima do nível virtual e simbólico, quanto mais compreende e se aproxima daquilo que ele deveria ser, isto é, quanto mais obedece, tanto mais é ele recompensado e reconhecido pela máquina escolar. E o caminho inverso, talvez mais importante, também acontece: quanto mais se afasta do nível simbólico, desobedecendo à palavra de ordem professoral, mais ele é punido, tendo em vista a sua reintegração na ordem da sala de aula. O sistema de recompensas e castigos, portanto, é um aparelho de poder que contribui para a produção da subjetividade escolar.