Apesar de já ter amanhecido, o céu continua escuro, com uma chuva fina que cai sobre o teto em um ritmo melódico, trazendo calmaria. E a brisa gelada que entra sobre a abertura da janela faz com que Mônica se arrepie. Ela procura pelo marido por entre as cobertas, mas o mesmo já se encontra desperto escrevendo, mais uma... Mais uma daquelas intermináveis cartas obsessivas.
- Eduardo, por favor deite aqui mais um pouco comigo e com sua filha.
- Mais tarde.
Ela se altera e responde ao marido de forma grossa.
- Eu não consigo acreditar como você é capaz de me trocar e trocar essa criança que ainda nem nasceu por uma obsessão.
Ele a olha, transmitindo toda a raiva que sentia naquele momento.
- É a última vez que vou falar. EU. NÃO. ESTOU. OBCECADO.
Apesar de ser carinhoso e muito paciente, Eduardo não suporta, ser tratado como um louco, fanático por alguém.
- Claro que você não é. - Mônica responde sendo irônica - Mas já que você prefere ficar aí, vou te deixar em paz.
- Moni, não aja como uma criança mimada. Saia dessa cama e prepare o café da manhã.
- Se contente com essa xícara de chá ao seu lado, até porque, crianças mimadas não cozinham.
Eduardo se levanta da cadeira furioso com as provocações da esposa, vai até a cama e a puxa pelo braço, apertando seu pulso.
- Se controla, você está me machucando.
Mônica mesmo estando acostumada com os ataques do marido, naquele momento se sentiu vulnerável.
- Eu tento, mas você faz de tudo para me irritar.
- Tudo bem, me desculpe, agora me solta.
Ele a solta e a empurra, fazendo ela cair na cama.
- Eu... eu... Ah esquece, vou dar umas voltas por aí.
- E o seu trabalho?
Mônica pergunta entre soluços, com a voz embargada, não conseguindo conter as lágrimas.
- Isso não é da sua conta.
Ele bate a porta do quarto, e ela se levanta entre tropeços para escutar os passos do marido, ouve o barulho das chaves do carro e o marido trancando a porta, provavelmente a prendendo mais uma vez dentro de casa.
Espera alguns instantes, até ter certeza de que o marido já saiu. E abre a porta do quarto e vai para a cozinha, preparar um café amargo.
Coloca em uma xícara e vai para o quarto pegar o livro que estava lendo, mas quando abre a porta e olha para a mesinha ao canto, uma coisa lhe chama atenção. A carta que o marido estava escrevendo.
Pega e abre a folha de papel, mas não sabia se era certo ler o que o marido havia escrito ali.
- Quer saber? Não vejo problema algum em ler isto aqui.
Falou sozinha, sentido um sentimento estranho. Pensava que não era certo invadir a privacidade do marido daquela forma, mas precisava saber o que tanto o marido escrevia para aquele cantor.
Mônica coloca a xícara sobre a mesinha e se senta na cama, segurando a carta com as mãos trêmulas.
Caro Sven
Te escrevi, mas você ainda não me respondeu, deixei o número do meu telefone, o endereço de onde moro, talvez você não tenha recebido nenhuma das cartas, por problemas no correio ou algo do tipo, ou posso ter errado alguma coisa, as vezes escrevo o endereço muito relaxado.
Mas de qualquer forma, me conte, como anda a vida? E a sua filha?
Ainda não te contei a novidade, minha esposa também está grávida, e se for uma menina, adivinhe como vou chamá-la? De Bonnie, eu li sobre o seu tio Ronnie, eu sinto muito, também tive um amigo que se matou, por causa de um sentimento que não era recíproco.
Mas mudando um pouco de assunto, sei que você provavelmente ouve isso todo dia, mas acredite eu sou seu maior fã.
Tenho desde seus primeiros CDs até os mais atuais e um quarto cheio de posters e fotos mano.
De qualquer maneira, espero muito que você receba isso cara, e por favor me responda, só pra conversarmos.
Sinceramente, seu maior fã, o Eduardo.
Mônica mal sabia o que pensar quando chegou ao fim da carta, colocar o nome da filha deles de Bonnie? Por causa de um tio?
Absorta em pensamentos, deitou se em uma posição confortável para ela e para o bebê e acabou por adormecer.
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Stan
Short StorySabe aquele ídolo que você ama? Então, todos temos um ou pelo menos alguém que admiramos o trabalho que faz. Mas quando essa admiração, se torna algo exagerado e chega a ser obsessão, você deve começar a se preocupar. Esse é o caso de Eduardo, fanát...
