Em uma varanda qualquer de uma cidade de interior, uma senhora com idade já avançada descansa em sua cadeira de balanço, em seu ir e vir em que apenas o ranger das molas quebra o infinito silêncio. Naquela rua de terra, agora são poucas as crianças que de vez em quando ainda saem timidamente para brincar.
Quando seus cabelos ainda não eram brancos e seus ossos não eram frágeis, quando suas rugas ainda não marcavam sua pele e sua voz era aguda ao invés de rouca, meninos e meninas com suas bolas, peões e cordas enxiam aquela rua de alegria. Não havia uma única criança que se juntava à turma. "Saudades daquela época", pensa a senhorinha, que com seus quase noventa anos, com muito esforço mal consegue dar alguns poucos passos.
Ao fim da rua, a senhora avista um menino se aproximar. Vestido como os de sua época, de bermuda e uma camisa de um tecido bem fininho, suspensórios e cabelos partidos de lado. Saltitando animado, o garoto chega a ela abrindo um largo sorriso:
- Vamos brincar! – grita em alegria.
A senhora retribui o sorriso, que se forma em sua face murcha de uma forma bem mais amargurada do que ela gostaria.
- Adoraria brincar, mas não tenho mais forças nem energia.
- E por que não? Será muito divertido se formos brincar.
- Olha menino, eu sei o quanto seria divertido brincar, por que já fui criança um dia. Corria tão rápido como uma flecha, escalava as árvores mais altas, e me encolhia para caber nos lugares mais estreitos. Mas nos dias de hoje, só o que posso fazer é sentar em minha cadeira de balanço e observar essa rua parada, lembrando o quanto um dia ela já foi alegre.
- Mas isso é muito chato. De que adianta se lembrar da felicidade, sem poder vive-la novamente?
A senhora fica espantada com a sabedoria nas palavras do menino, e tristemente se da conta do quanto são verdadeiras.
- Qual o seu nome, menino?
- Eu me chamo Gervásio.
- Bonito nome. Ao que me lembro, era esse o nome do meu falecido marido.
- Também me lembro de uma Arlinda, que conheci muito tempo atrás. Mas ela não era chata como você, e sim uma menina, que adorava brincar e se divertir. Não seria você a mesma Arlinda?
Ao ouvir seu nome, espantada, a senhora se levanta, mas não se vê como costumava ver. Ela não tinha cabelos brancos, ossos frágeis e nem rugas. Seu largo vestido florido e desajeitado é um lindo vestido rodado, preso na cintura pela mesma fita de cetim que agora prende seus cabelos negros. Ao olhar para si mesma, pode reconhecer a mesma menina Arlinda, que outrora brincava por aquela rua.
E de mãos dadas, as duas crianças caminham desapressadas pela rua de terra, ao encontro de uma escada dourada que apenas elas podem ver. Subindo lentamente em direção ao paraíso, a menina dá uma última olhada para trás, onde a velhinha adormece, imóvel e estática, esperando para que alguém a encontre, gélida, apenas adormecida.
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De volta à infância
Short StoryMiocroconto Sonhos de épocas passadas trazem à senhora, em sua cadeira de balanço, o desejo de voltar a brincar, como quando era uma criança. "Saudades daquela época", pensa a senhorinha, que com seus quase noventa anos, com muito esforço mal conseg...
