1. A chuva que nos une

32 4 1
                                        

"Adorava os pequenos detalhes sobre você.

Os livros e anotações espalhados pelo pequeno apartamento.

As canecas de café sempre presentes na escrivaninha.

Os post-its em todos os lugares.

A coleção de discos de vinil..."

– Bem vindo ao apartamento de um futuro acumulador de meia idade solteirão – você disse na primeira vez em que me levou para a sua casa. O local era tudo menos organizado, não se dava dois passos sem esbarrar em uma pilha de livros ou pisar em anotações, por isso, ao entrar sempre tirava os sapatos e os deixava na entrada da casa.

Podia ver um pouco de você em cada cantinho. Era a sua maior qualidade, sempre doava um pouco de si, mas também era o seu maior defeito.

Às vezes se doava para quem não merecia e por isso acabava se ferindo.

Um de muitos dos dias chuvosos de Florence foi quando nos conhecemos e nele você me ensinou a beleza dos dias de chuva. Eles pararam de ser incômodos e passaram a ser meus dias favoritos.

– Também está fugindo da chuva? – perguntei.

Estávamos lado a lado embaixo do toldo de uma loja de vinis que nos protegia. Você olhou para os lados como se estivesse procurando com quem eu estava falando, não tinha mais ninguém por perto, estava bem claro que era com você, achei que não fosse me responder, mas respondeu.

– Não – disse em um tom de voz de quem não entendia por que estava falando com um completo estranho.

A verdade é que não sei por que falei com você naquela tarde, assim como você não sabia por que estava me respondendo. Destino? Improvável. Nem um de nós acredita em destino.

– Parei para apreciar a chuva – você continuou e parecia tão surpreso quanto eu, quase como se as palavras estivessem saindo da sua boca sem permissão.

– Você gosta? – perguntei. Florence era a primeira cidade em que eu morava com um clima ruim, o tempo todo estava nublado e parecia que o céu ia desabar em uma tempestade a qualquer hora como aconteceu naquela tarde. – Da chuva, quero dizer.

– Admiro... Você não? – era uma resposta estranha e a sinceridade naquelas palavras me pegou de guarda baixa. Fácil assim você me entregou um pedaço seu, um desconhecido com quem estava conversando na rua.

Não sabia como responder e diante do meu silêncio, te vi deixar o abrigo do toldo e entrar na chuva. Como se esquecesse de que eu estava ali inclinou a cabeça na direção do céu e sentiu a chuva. Não tem outro jeito de descrever. Você estava sentindo a chuva e guardando um pouquinho dela consigo.

Tive vontade de fazer o mesmo e descobrir a sensação, mas não conseguia nem queria desviar os olhos daquela cena. A rua estava vazia e agradeço por isso, desejava que eu fosse o único a te ver e guardar aquele momento para mim.

Quando o assunto é você, Jesse, eu sempre sou egoísta.

Quebrando o momento você abaixa a cabeça e se afasta, mas por alguma razão olha para trás. E só então eu percebo o quão bonito você é, de um jeito discreto com o cabelo castanho molhado caindo sobre os olhos e a pele pálida. Senti meu rosto ficando vermelho com o pensamento.

Não consigo reparar na cor dos seus olhos por que logo você se vira e vai embora. Quase como se fugisse.

Depois que você sumiu de vista finalmente me mexi e saí debaixo do toldo da loja.

Sinto as gotas de água por alguns minutos...

Baixo o capuz e sorrio. Então é essa sensação.

Parachute #Wattys2017Stories to obsess over. Discover now