Doppelgangerização transdimensional de Macuco

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para Antonio Eder e Márcio Massula Jr.

            "It’s an open secret that he doesn’t get on with the rest of his section. How can he? They’re all wild talents—clairvoyants and mad magicians, telekinetics, astral travelers, gatherers of light. Roger’s only a statistician. Never had a prophetic dream, never sent or got a telepathic message, never touched the Other World directly. If anything’s there it will show in the experimental data won’t it, in the numbers . . . but that’s as close or clear as he’ll ever get."

Gravity's Rainbow de Thomas Pynchon

A primeira coisa que Tompinhão Coelho fez foi pintar o olho do Daruma, que agora, com o pedido realizado, tornara-se um talismã. Símbolo da perseverança, que Tompinhão comemorou fumando um enquanto conferia o volume de contos com seu nome na capa (era esse o pedido) que recém-chegara pelo correio junto a outras duas cópias nas quais ele em vão procurou por assinaturas dos colegas escritores e editores que o convidaram para figurar na antologia.

            Do sumário, óbvio, pulou para os próprios contos. Já os havia lido tanto nos dias que antecederam a chegada do volume que os sabia todos de cor. Mas ainda assim tratou de reler-se minuciosamente. Congratulou-se pelo brilhantismo das próprias palavras. E cinco minutos depois deu com a cabeça na parede, arrependido de algumas decisões semânticas, certos jogos verbais mal executados e a certeza absoluta de que nenhuma mulher pela qual estava interessado iria ler qualquer um daqueles quatro contos nos quais ele, era verdade, pouco se esforçara, escrevendo com a confiança do automatismo e das palavras que ele acreditava serem divinas exatamente por não se submeterem à revisão.

            Mas não era apenas sexo que turvava a mente de Tompinhão. Sua recusa aos protocolos de linguagem parecia condená-lo ao que lhe parecia como: a) um limbo da incompreensão intelectual, onde todos aqueles que o negavam, em algum momento iriam sucumbir para o bem da sua gloríola; e b) um caso grave de irrelevância intelectual de quem acha que está criando algo significativo quando esta mesmo é regurgitando uma rebeldia que certamente já contou com representantes mais capazes. E as duas possibilidades assustavam Tompinhão como o inferno a uma criancinha no sacodedormir na casa de um amigo tarde da noite depois que todos contaram histórias de terror.

            E, Deus, ele pensou, como demora pra que escrevam resenhas de coletâneas de contos nesses dias em que, se tem uma coisa que a literatura não é, é notícia.

            Enquanto as honrarias e Jabutis não batiam à porta, Tompinhão Coelho lia o livro. Foi com prazer que descobriu uma nota de agradecimento a ele nas primeiras páginas. Um tributo por sua ajuda na revisão (de onde muitos cacos sobreviveram) e em algumas decisões editoriais e de comunicação (parte do texto da contracapa, que também circulava no material de divulgação, era indubitavelmente escrita por ele). Achou estranho que seus contos não estivessem reunidos todos num único ponto do livro, mas encontrou sua biografia intacta nas páginas finais do volume e notou que o mesmo tratamento tinha sido adotado para com todos os outros escritores.

            Quando o terceiro baseado acabou, Tompinhão Coelho já estava meio adormecido sobre o livro e sem entender uma palavra das últimas duas páginas lidas. Colocou o volume para o lado e dormiu ali mesmo, no sofá. Sonhou com um momento de esquecimento, algo relacionado a um espelho, mas fatigavelmente consumido pelas margens do sono.

Na manhã seguinte se permitiu uma leitura menos chapada e mais observadora. Primeiramente, teve de parabenizar os colegas com quem dividia o espaço, eram mesmo uns danados de uns fantásticos. Estava honrado em poder ser lido pela mesma audiência que certamente ia procurar pelos outros autores. Sim, autores! Era ele também um autor.

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