O olhar vidrado e uma flecha

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Era um período de guerras.
Não dava pra colocar o rosto no sol. Escondíamos feito camundongos na escuridão de nossas casas,rezando para que o próximo alvo não fosse nossas cabeças.
Eu morava com minhas tias Fenna e Anne em um apartamento antigo na periferia da cidade,onde a guerra borbulhava em seu ápice.
Dia e noite esperávamos o chão começar a tremer com a chuva de bombas que destroçava nossas vidas.
Por não termos um porão,corríamos todas as noites para o estabelecimento da Srta. Rosa. Era um hotelzinho de beira de estrada, que possuía um belo e  profundo porão, capaz de abrigar umas vinte pessoas sãs e salvas embaixo da terra.
Nessas idas e vindas conheci Rin. Veja bem, nos meus vinte anos de idade me preocupava mais em salvar minha pele do que olhar meus companheiros de "toca",o que é aceitável numa guerra. Acontece que são momentos estranhos assim que pessoas acabam se aproximando.
Rin era um cara estranho para mim. Como ele sempre possuía um olhar estático,nunca percebeu minhas olhadelas no meio dos momentos de gritos e desespero. Sabe, ele possuía umas orelhas pontudas, que me faziam lembrar das histórias holandesas de tia Fenna sobre elfos e faunos.
Esses detalhes passavam despercebidos porém,pois o chão tremendo e cedendo cada vez mais, e a poeira caindo em nossos olhos era uma coisa mais importante para se preocupar.
Horas mais tarde,quando o alarme soava, avisando que o pior tinha passado, saíamos do porão, desacostumados com o menor dos brilhos com as pernas tremulas, e voltávamos abalados para nossas casas.
Minha vida atualmente é assim, e quem vê de fora pode achar o máximo, mas ninguém sabe todas as coisas que eu trocaria por uma vida mais pacífica em qualquer outro lugar do mundo em que não desse para escutar as rodas triturando o solo dos tanques de guerra,ou as bombas rachando a superfície da terra em feridas profundas.

Era primavera,e apesar da destruição algumas árvores e plantas baixas batalhavam ferozmente por sua vida, colocando enfim cores nos olhos das pessoas desacostumadas a ver alguma beleza.
Coisa tão incomum de acontecer, aquela beleza rara que é a natureza seguindo seu curso, ignorando a destruição mundial,que foi o nome que recebi, o milagre, a Flor que como a árvore batalha por sua sobrevivência, Lillie, ou traduzindo do alemão para o português,Lírio, a Flor resistente a baixas temperaturas.
Minha janela não possuí cortinas,não temos esse luxo, então o sol da manhã bate diretamente em meus olhos todo dia,me avisando irritante como sempre,que é hora de acordar. Tia Fenna não está mais no quarto,provavelmente está lá em baixo conversando com as vizinhas sobre a madrugada que tivemos. Já tia Anne continua em seu colchão, vejo o contorno de seu quadril arredondado nas cobertas e sorrio. O sol ilumina sua pele escura, que brilha radiante e mesmo assim não a acorda.
Ando a passos leves,passo por cima de tia Anne e saio do quarto.
Vou ao banheiro ver minha situação e minhas olheiras já nem me assustam mais.
Arrumo meus cabelos num rabo de cavalo,coloco minhas roupas de "caça", pego meu arco e flecha no corredor, privilégio que consegui invadindo o último clube de arqueiros no final da rua, que foi bombardeando horrorosamente,só sobrando a fachada e uma parede da sala de equipamentos no fim do clube. Sorte para mim,já para eles... 
Da janela do corredor consigo ver tia Anne na rua, e como moro no quarto andar, consigo ouvir suas lamentações. 
Se a cidade de Vesna fosse um lugar normal,diria-se até que hoje o dia está bonito. Tirando os buracos na rua, os escombros dos prédios, e alguns focos de incêndio.
Respiro fundo e abro a porta, dando de cara com uma pessoa. O impacto foi tão forte que meu arco saiu voando e meu sapato foi junto numa confusão de corpos enroscados escada a baixo. 
Sopro meu cabelo do rosto,meu mini cabelo que ainda me atrapalha, e olho para cima. A primeira coisa que registro são orelhas pontudas e um cabelo incrivelmente preto, mais preto que o meu. Rin.

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⏰ Terakhir diperbarui: Nov 18, 2017 ⏰

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