Era um vez, um homem chamado Renato, que ficou viúvo dez anos após o nascimento de sua filha, chamada Clarisse. Ela tinha pele clara, olhos verdes e cabelo ruivo, como o sol da tarde. Um dia o homem se casou novamente com uma mulher esnobe, que tinha duas filhas, Mônica e Eduarda, e se tornou madrasta de Clarisse. Eles se mudaram para Brasília, onde Clotiude, a madrasta, tinha uma casa. Porém, Renato viajava muito a trabalho e ficava pouco com a família.
No começo Clarisse teve dificuldade para se acostumar com a casa nova, pois ela considerava a sua casa antiga um pedacinho do céu. Não gostou muito daquela mulher tentando ocupar o lugar de sua mãe, e aquelas duas meninas metidas, e nem elas dela.
Quando seu pai viajava, Clarisse passava a maior parte do tempo trancada no seu quarto, com seus discos, seus livros e seu passarinho, que era seu único companheiro. Ninguém ligava para ela, fingiam que ela não existia, mas com o tempo começaram a maltratá-la. Deram todos os serviços da casa para ela, não deixavam ela usar suas próprias roupas, só trapos. Mônica e Eduarda zombavam dela enquanto engordavam sentadas no sofá. Mas Clarisse não podia fazer nada, senão apanhava escondido de seu pai.
Ela mudou muito depois que sua mãe morreu, ficou muito calada, triste, e não tinha amigos na escola. Seu pai sempre esteve ao seu lado, lutando e fazendo de tudo para lhe dar o melhor e vê-la feliz, por isso ele era a pessoa que ela mais amava.
Felizmente o domingo chegou, era dia de Renato voltar para casa. Clarisse não cabia em si mesma de ansiedade. Quando ouviu o ronco do Opala 1972 do seu pai, a ferrugem do seu sorriso foi embora. Ela saltou da cama, desceu as escadas correndo e pulou nos braços dele.
- Olha a minha garotinha!
Ele dizia a abraçando.
- Finalmente você chegou, papai! Eu senti muita saudade.
- Eu também, minha querida!
Como era um dia especial, fizeram um almoço especial, e a madrasta fingiu muito bem. A noite, Clarisse estava em seu quarto e ouviu seu pai e Clotiude conversando no sofá da sala, ela decidiu descer e ver seu pai mais uma última vez, mas teve medo do que a sua madrasta poderia fazer depois se ela atrapalhasse, então apenas ficou os olhando de longe. Clotiude a viu e a fuzilou com os olhos, seu pai lhe deu boa noite e um beijo na testa. Com uma voz de falsidade, a mulher disse que queria conversar com Clarisse antes de ela dormir, para Renato aquilo pareceu bom, então a deixou ir.
Subindo as escadas, ela pegou a menina pelos braços e a levou até o banheiro.
- Escute bem, eu deixei você ver seu pai porque não quero que estrague tudo, se tentar contar algo a ele eu te mando para bem longe daqui!
- Você é uma interesseira! Eu tenho nojo de você e vou abrir os olhos do meu pai o quanto antes!
A madrasta se virou, respirou, e voltou dando um tapa no rosto de Clarisse.
- Cale a boca!
Ela gritou.
Então saiu do banheiro e trancou a porta.
Clarisse escutou seu pai discutindo com a mulher por ter gritado com ela. Lembrou da falta de sua mãe e chorou. Seu coração e sua garganta doíam, sua cabeça também. Ela não queria mais viver naquele lugar, não queria mais sofrer, não queria ver seu pai sendo enganado, ela queria correr para os braços de sua mãe, mas não podia.
Dez minutos depois, Clarisse parou de chorar e ficou paralisada sentada no chão do banheiro. Até que levantou, tirou suas meias, sua blusa de frio, encheu a banheira e entrou ainda vestida. Pegou a caixa de lâminas de barbear de seu pai e cortou os pulsos. Sentindo a essência estranha do que é a morte, ela sangrou até morrer, sozinha.
- Clarisse? Filha? É o papai, está tudo bem? Filha, por que tem água no chão?
Renato sentiu um desespero.
- Pegue a chave da porta agora, Clotiude! Rápido! Vai!
Quando Renato entrou viu toda aquela água misturada com sangue e sua filha deitada na banheira, ele se assustou, correu para ela e a pegou nos braços.
- Filha! Filha! Clarisse fala comigo! Fala comigo! Clotiude, chama a ambulância! Filha! Filha!
Ele começou a chorar. A ambulância chegou e a levou, mas era tarde demais para tentar algo. Renato proibiu a Clotiude de ir ao velório e pediu divórcio quando ela confessou tudo que fez.
Ele havia perdido o seu raio de sol, sua luz que o fazia alegre, sua pequena e amada filha. Renato sentia remorso por não ter passado mais tempo com ela naqueles últimos dias, e se culpou por não saber como ela se sentia para chegar a por fim em sua própria vida.
Voltando para a casa à noite, ele recebeu uma mensagem dos céus, uma voz que dizia :
- Você terá mais uma chance, meu filho.
Renato não entendeu muito bem e continuou a dirigir. Dois anos depois ele resgatou uma menininha da rua e a adotou, então entendeu a mensagem. Ele teve mais uma chance para cuidar de uma filha, protegê-la, dar amor, carinho e alegria, e nunca deixar que lhe façam mal.
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Clarisse
General FictionBaseada no conto "Cinderela", "Clarisse" conta sobre uma garota que morava somente com o pai após sua mãe ter falecido. Quando seu pai casou-se novamente, ela teve que enfrentar muitas dificuldades com a madrasta e suas filhas. Apesar de que Cindere...
