Esperava ansiosamente o horário das três da tarde para ir a beira de uma represa muito grande - era chamada de mar goiano, tamanha era sua dimensão - pegar sua canoa que era sempre arrastada pela proa até que estivesse com quase metade do corpo metálico pra fora da água para que não fosse arrastada pelas ondas impetuosas.
Usando seu chapéu ia pescar todos os dias no mesmo lugar, numa árvore sem folhagem, sem nenhum resquício de vida, que foi plantada na época de seca no meio da represa. A árvore com sua madeira esbranquiçada e com rachaduras causadas pela forte ação da luz solar, mas que ainda era muito forte, tinha um aspecto solitário, que era ressaltado pela quietude das águas. O Sol das quatro era ainda muito forte, o que transformava a água em um espelho refletor que queimava a pele. Só a partir das 5 é que o Sol esfriava e ai então o homem poderia tirar o chapéu.
Mesmo a árvore sendo utilizada para que o homem amarrasse um tambor furado com milho dentro que era utilizado de ração para os peixes, o lugar não rendia muitos pescados e corria o boato de que a represa já não era a mesma, pois a muito tempo aquelas águas regadas por rios férteis como o Rio Paranaíba não davam mais tantos frutos com outrora, porém o homem nunca deixou de ir para a seva todos os dias na mesma hora, mesmo que fosse para voltar de mãos vazias, o que lhe agradava era o simples fato de poder ficar horas a fio olhando a imensidão daquelas águas e imaginando que tipos de monstros poderiam se esconder naquelas profundezas escuras de um tom esverdeado.
Enquanto estava ensimesmado era como se fizesse um culto à solidão e ao mesmo tempo sentia-se acompanhado por seus pensamentos, que eram como membros que participavam todos os dias daquela seita.Quando olhava obstinadamente para aquele verde escuro da água, tentando ver algo, nem que fosse inventado por sua imaginação, não percebia que afundava em si mesmo e era levado ao seu estado mais profundo de transe, não se preocupando com mais nada, fazendo com que muitas vezes não percebesse que sua linha tinha fisgado um peixe. A pescaria na verdade era apenas uma escusa do homem para que pudesse ter seus momentos diários de reflexão.
Certo dia quando o homem chegou a sua seva, percebeu a presença de outro pescador que tinha apoitado sua canoa no outro lado da árvore. O outro pescador pouco se importou com a presença do homem que acabara de chegar e mesmo seu motor 15 fazendo bastante barulho o pescador desconhecido fingiu que não o ouviu e continuou na popa, de costas viradas para o homem, com sua vara de bambu nas mãos como quem não quer ser importunado.
O homem ficou irado e pensou "Quem esse maldito pensa que é para vir pescar logo em minha seva ?!". Aquela presença parecia ter lhe causado um desequilíbrio mental, algo que o homem designou como "a doença da irreflexão", pois não conseguia pensar em nada, nem afundar nas águas de si mesmo, como sempre fazia no seu local sagrado de meditação. Tentou um contato visual com o pescador para que pudesse ver seu rosto, mas ele permaneceu estático, sem se mover um centímetro desde que chegará, foi quando tentou falar com o intruso, que mais parecia um espectro.
- Ei camarada.
Não obteve respostas. Tentou novamente porém assumiu outro tom de voz.
- Ei você, o que faz aqui na minha seva? Não vê a imensidão das águas que nos cercam? com certeza existem outros locais para a pesca.
- Faça silêncio! Não sabe que assusta aos peixes ficar gritando ?!
O homem sentiu a voz engasgar na garganta pela cólera reprimida naquele instante. Respirou fundo e pensou "Filha da puta !". Voltou-se à proa, sentou-se no bico metálico da canoa, colocou a minhoca no anzol e jogou a linha enquanto deixava a ponta dos dedos dos pés tocarem na água. Naquele dia nem uma piaba mordeu a isca e o homem não conseguiu traçar uma linha de raciocínio, pois só conseguia sentir raiva daquele estrangeiro que havia invadido seu culto sagrado.
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Amorfo
Storie breviAmorfo é um conto que mostra a vida de um homem cansado de suas ações rotineiras e que se sente intrigado quando uma presença desconhecida aparece em seu local sagrado de fuga da realidade. Mistério, reflexão e até uma pitada de subversividade perm...
