Por vezes tenho a necessidade de fazer algo por puro desejo, então arranjo todos os meios possíveis para tal, e dessa vez não fora diferente. Sou Pedro Alves, e estava a procura de uma travesti para realizar minha tão sonhada fantasia.
É notável esse comportamento - o da necessidade igual à busca pelo regojizo - vindo do ser humano, pois quando tínhamos fome, saiamos para caçar, ou levantávamos da cama para ir até a geladeira.
Tal qual o detetive virtual, fui atrás de números de telefones, CPF's, cupons de desconto em restaurantes entre outros, dentre as três tentativas uma deu certo. Eu tinha dinheiro, o cachê era de cem. "Por quê não?" indaguei.
Era Clara Vasconcelos, uma mulher que aparentava um gosto razoavelmente bom para roupas, tinha uma tatuagem de dragão perto de seu ombro esquerdo, cabelos pretos chegando à cintura, seios pequenos, quase que inexistentes, quadril consideravelmente médio, embora eu não tenha uma escala internacional de medidas de quadris.
Como sempre, como sempre há de convir na minha vida, todo e qualquer resquício de otimismo é esmagado pela vil realidade da minha existência execrável, assim como quando você cria expectativas nos natais da sua infância, mas no final ganha um - ou vários - par - ou pares - de meia - ou meias.
Após uma conversa nada afável, como de costume pois, considerando o que conheço sobre mim mesmo, não há capacidade nenhuma de escrever uma frase com mais de cinco palavras para alguém desconhecido, pois como de praxe, não costumo gostar da ideia de conhecer gente.
Combinamos no dia seguinte.Uma hora da tarde. Uma hora, cem reais, e nada mais.
Chegado o dia, a esperei num ponto de ônibus perto do parque Carlos Figueiredo. Deu-se a hora marcada, uma da tarde. Nenhum sinal de Clara. Obviamente, pensei eu, levara outro bolo dos já incontáveis bolos que havia já levado - e que ainda levaria.
Liguei para ela, por um instinto quase divino do meu otimismo orvalhando no meio da escuridão do meu ser, ela atendeu. Desliguei e mandei uma mensagem.
Eu já tinha informações sobre seu paradeiro, informações essas que se resumiam unicamente ao nome da avenida. Disse a ela onde estava, com isso foi-me dado o número do casebre. Então iniciei minha jornada de quarenta dias e quarenta noites em busca do número designado a estar.
Estava eu num lugar completamente desconhecido, um território que não havia ainda sido explorado por mim e, portanto, nulo do meu mapa mental.
Segundo o que ela disse, ficava perto de uma padaria, na avenida General Diego, subi a tal avenida rapidamente num sol quente e numa temperatura que, segundo os termômetros públicos, marcava vinte e sete graus célsius.
Depois de perambular por quase vinte minutos aquele interminável deserto de pedra e casas, finalmente achei.
O número da casa, segundo Clara me informara logo após por meio de mensagens eletrônicas, era 985.
Quando cheguei, vi de imediato o portão aberto, uma escadaria cuja iluminação precária dava a sensação de obscuridade e de futuro martírio por quem ousasse subi-la. Essa imaginação estava, como iria descobrir depois, completamente correta.
Enquanto subia Clara apareceu, estava de fio dental e sutiã, apesar das características já supracitadas dos seios.
A iluminação do quarto era análoga a da escadaria, um escuro gótico. Seus móveis e eletrodomésticos consistiam em uma cama no fundo, particularmente no lado esquerdo, uma geladeira ao lado, uma mesa com coisas na qual não tive a capacidade de mensurar perante a obscuridade. Havia também uma cadeira ao lado da cama.
Além desse comodo, havia outro cuja minha inocência dizia que não havia ninguém por ali.
A primeira coisa que ela dissera-me foi algo relacionado à idade, coisa que ela, a primeira vista, não acreditava no número correspondente à minhas primaveras vividas.
Encaixei-a em meus braços, fui deslizando minha boca naquele corpo.
Quero que você, caro leitor, imagine todos os pormenores dessa prosa, para que, quando sentir-se um tanto triste, lembre-se dela e ria da minha desgraça.
Depois foi iniciado o ritual do oral. Logo pelo começo foi-me notável seu fetiche por dentes, pois sentia a cada centímetro seus dentes roçando na cabeça do meu pau, um fetiche pelo qual eu, expressivamente, não o tenho.
Quando ficou de quatro, quando eu estava por realizar a maior proeza de um fracassado, ouviu-se, como diria Edgar Allan Poe, que alguém batia - nem tão - levemente aos seus umbrais.
Por certo, deve imaginar você leitor, contive minha atenção no ato no qual estava tão ridiculamente tentando fazer. Estás certo. Pois começara o iria da temporada de broxismo vinda de minha pessoa.
Perguntei a ela quem poderia ser, ele respondeu prontamente porém não escutei pois falara por demasiado baixo.
Quando fora abrir a porta, eu, num instinto de sobrevivência, fui até o outro cômodo, nu, como vim a esse mundo de merda. Para minha surpresa, toda a seita estava ali, ou "outros" estavam lá, em suas formas tão magnificamente assustadoras e súbitas aos meus olhos, deitados em suas camas. Rimos muito - eu, principalmente, de desespero.
Após isso não consegui mais ficar excitado. Tentativas e mais tentativas, dentes e mais dentes na cabeça do pau, nada. Absolutamente mais nada. Somente o velho e bom Pedro à margem de si mesmo.
Eram duas e dez quando estava indo embora, ela pediu-me desculpas, mas quem tinha que pedir desculpas mesmo eram meu pai e minha mãe, por terem procriado uma forma de vida tão decadente como eu.
Ao sair soltei um "desculpa qualquer coisa" em alto e bom som.
Desci a escadaria escura rumo à liberdade. Já na rua, comecei a pensar que, apesar de tudo, ainda estava vivo. Acendi um cigarro e peguei um ônibus até a minha casa.
A moral disso tudo? Simples: não crie expectativas.
Eu sou Pedro Alves, o mais novo celibato das redondezas.
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A travesti.
Short StoryUm "ensaio" sobre o contratempo de uma vida sexual desativada. "Por vezes tenho a necessidade de fazer algo por puro desejo, então arranjo todos os meios possíveis para tal, e dessa vez não fora diferente. Sou Pedro Alves, e estava a procura de uma...
