Eu cresci aqui.
Sinto-o pela forma como a lágrima que escorre pelo meu rosto parece traçar uma rota peculiarmente familiar.
Eu cresci aqui enquanto bailarina, enquanto artista, enquanto pessoa.
Eu cresci aqui.
Desde os primeiros passos, indecisos e desiquilibrados, tentando seguir uma canção, com um ritmo mais ou menos marcado. Agora percebo que a vida também é assim. E o quanto gostava de ter alguma banda sonora lá no fundo para entender o que se está a passar.
Eu cresci com a professora M.
Com as breves histórias guardadas cuidadosamente no armário ao lado do espelho. Histórias que me transportavam para outro mundo, enquanto tentava expressar apenas por movimento o que me faziam sentir.
Por vezes queriam que fosse o Lobo Mau. Eu, que apesar desta aparente atitude monstruosa sou uma simples criatura. Eu, que o que mais queria era ser uma borboleta. Deixem lá o papel principal da Capuchinho para outra menina que se sinta corajosa e confiante com o traje cor de sangue. Eu fico satisfeita com um par de asas, os meus pezinhos traquinas de ballet e uns movimentos leves e harmoniosos de toda uma transformação interior culminada num voo como nenhum outro.
Lobo mau... Eu?!
Fui borboleta, graças à minha mãe, e acredito que continuo uma. E fui feliz, nesta sala, como pequena borboleta.
Mas toda a insistência para que fosse a criança bruta mas com corpo fino e esbelto não corresponderam com o que a doce borboleta desejava e ela voou dali para fora.
Mais tarde voltei a ti. Já mais madura, com vontade de sentir novamente a transformação interior. Dança Jazz seria. Mesma professora, os mesmos hábitos, agora sem histórias. Novas amizades com pessoas já de antes conhecidas, coreografias engraçadas com transferências de peso (e de muita confiança), de rosas e cadeirões a mãos Broadway e a ritmos africanos, foi de tudo, e sentia-me confiante e novamente feliz.
Até que num segundo tudo mudou. Anunciada a saída da professora a pequena Beatriz bastante revoltada praguejou que não voltaria a dançar, que não ia gostar da nova professora e que isto tudo era uma real treta.
A pequena criatura estava enganada. E não fazia a mínima noção do que o destino lhe traria.
Com as amigas do costume, juntas traçaram o plano: na primeira aula, se não lhes agradasse, uma delas pedia para ir à casa de banho, demoraria, outra iria verificar o que sucedera e a terceira, depois da demora das colegas, ia tentar descobrir o que se passava. Depois do trio maravilha reunido, fugiam e nunca mais voltavam aquela sala.
Tal não foi necessário. Junto ao armário que outrora guardava as histórias, conhecemos a pessoa que por dois anos se tornaria na maior inspiração a nível artístico que tenho.
A professora T. acabara de chegar, prestes a mudar a (minha) perceção deste mundo por completo.
E assim eu conheci a verdadeira arte de dançar. A dificuldade de atingir todos os pontos do trajeto que defini na minha cabeça naquela pequena sala no curto período de tempo que tinha, com as limitações que o meu corpo e mente me impunham a cada segundo e com o peso exorbitante de toda a carga emocional que a vida ia acrescentando nas minhas costas.
Nesta sala aprendia agora a técnica, que pelas coreografias engraçadas não tinha sido alcançada mas que era tão fundamental.
Aprendia que para trabalhar em grupo era primeiro necessário saber trabalhar individualmente.
Batalhava e fazia birra (sim, 15 anos e fazia birras) quando era dia de improviso. Agora entendo que tudo isto não passava do verdadeiro medo da pequena borboleta sair do casulo através da sua própria idealização.
Agora éramos quatro, e apesar de toda a raiva que a dança me provocava e dos berros e choros revoltados depois de certas aulas em que me sentia uma inútil sem motivos para continuar, o grupo, inconscientemente puxava por mim, e alimentava a sede pela conquista.
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E num segundo
SpiritualDamos demasiada importância à noção temporal... Não damos atenção suficiente ao tempo e a tudo o que implica. Devia-me focar mais no presente e construir algo melhor que o meu passado que me garanta um futuro em que me imagine mais realizada. Quant...
