Dia ensolarado, estava muito quente, tinha acabado de sair de uma das milhares das aulas que tinha. Meus trabalhos estavam atrasados devido ao estágio que fora feito uma viagem ao interior do país. Enfim, a situação era crítica. Sai da sala de aula pensando em como organizar minhas tarefas. Já estava próximo da hora do almoço e o caminho ao refeitório era um tanto longo, já começava a sentir o calor ao sair do ar-condicionado da sala. No entanto também passava por um aquário que dava um pouco de sombra pois era um pouco coberto. Eu estava andando com o pessoal da turma do primeiro ano, que assim como eu, estavam indo ao refeitório.
Perto do aquário meu fone caiu e levou meu celular junto. Tive que parar e juntar as coisas no chão. Fiquei ali enquanto os outros distraídos continuaram sua trajetória. Olhei a minha frente e o grande aquário se formava, refletindo o sol escaldante, da mesma forma as carpas de diversas cores formavam um lindo mosaico. O aquário era como se fosse uma fonte colocada em uma pequenina praça, tinha um formato de oito, com uns quatro metros e meio de comprimento e um e meio de largura, suas beiradas rodeadas de pedras na parte de dentro que dava para a água, e no meio passava uma pequena ponte de concreto que passava de um lado ao outro, e tudo isso coberto por tabuas de madeiras vasadas pelo o sol.
Fiquei encantado com os movimentos frenéticos e repetidos que as carpas faziam. Ignorei os leves movimentos que as tartarugas executavam, pois algo me parecia familiar, os peixes iam em linha reta na diagonal e depois viravam e seguiam outra direção, fazendo quase linhas paralelas e uma carpa ficava parada entre as linhas. Peguei rapidamente meu caderno na bolsa e uma caneta, e concentrando-me pude ver a letra A se formando no desenho. Quando terminei de escrever elas logo mudaram de movimento, agora parecia um oito e um traço ligando os dois círculos ao lado do número, mas quando desenhei tomou uma forma de B.
Percebi que estava indo no caminho certo quando elas pararam. No entanto um peixe filhote nadou ao outro lado, passando por debaixo da ponte. Acompanhei o pequeno peixe, e ele começou a nadar perto de uma tartaruga, como se também quisesse formar uma outra letra. Me atentei logo e pus a desenhar, e por fim formou-se um R. ABR.
O que isso significava? Fiquei esperando algo mais vindo das carpas, mas nada, enquanto isso minha fome batalhava contra a minha curiosidade. Subi na beirada do aquário, olhei para o peixinho agora parado como se esperasse algo vindo dele.
- Vamos peixinho – disse ainda esperando algo – me mostra agora só falta você falar.
Ou estava ficando louco ou, sei lá, deveria ser o sol e a fome... olhei para o papel com as letras e decidi recitar-las. Mas pensei bem, não tinha sentido, a única vogal era a letra A.
- Ab... Abirrr...
Enquanto eu tentava o peixinho começou a soltar várias bolhas como se me incentivasse a falar alguma coisa.
- Ah, agora você me ajuda – protestei. Não, eu realmente estou louco, falando com um peixe...
Olhei de relance para ele e...
- Abrirrrrr...? – falei quase sussurrando e inseguro, com medo de alguém me ver naquele estado.
As bolhas pararam, e de repente um barulho de galhos se partindo vindo das minhas costas. Me virei para ver o que estava acontecendo, mas tudo que pude ver foi um vulto branco passando por mim. Mas como se não bastasse o borrão branco ainda me puxou em direção à fonte.
Normalmente uma pessoa se preocuparia com que o estava puxando, mas... Meu celular... MANO, meu, celular. Meu pai ia me matar se eu estragasse mais um celular. Fiquei esperando me molhar com o impacto na água, mas enquanto afundava, eu continuava afundando, e o lugar onde não passava de meio metro de profundidade agora parecia não ter fim.
