Novos Olhos

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Eu nasci cego. Vivi na escuridão e nela me acostumei. Queria ver a luz do sol, saber o que é o verde das folhas de uma laranjeira, saber o que é o vermelho de um morango, saber o que é o azul do céu e o negro da noite estrelada.

Não via nada, não sabia nada. Contudo, estava cego em meu mundo pequeno. Meu pequeno e incolor universo, onde as coisas só tinham forma, textura, sabor e cheiro. Eu imaginava como seria o mundo lá fora, onde tudo era colorido.

Porém, um dia eu encontrei Ela. Ela não era um pessoa comum. Ela, ao contrário de mim, enxergava. Tive a sorte de conhece-la, conversar, perguntar como era o mundo.

Ela respondeu "é difícil, seria mais fácil se vc tivesse novos olhos". Novos olhos, nunca havia pensado nisso. Estava fechado, a curiosidade aflorava mas tinha medo de ver também. Já se passara muito tempo, meus pés já estavam plantados no chão lamacento quase endurecido.

Mas, estava levantando como um Titã levanta de um sono profundo. Comecei a seguir Ela. Comecei a quebrar a argila que envolvia os meus pés. Aprendi a reconhecer novos sentidos, não precisava ser cego, mas ainda era. A última limitação, a cegueira que tanto me marcou.

Tropecei algumas vezes, mas segurei na mão dela - macia como pétalas de rosa. Comecei a perceber coisas boas, cheiros novos, texturas nunca antes tocadas, gostos não provados. Estava gostando dessas novas experiências.

Um dia, Ela me chamou para uma viagem de fim de semana. Fomos a praia, fazia muito tempo que não ia. Senti novamente o cheiro da maresia, a textura fina da areia. Mas tinha uma coisa que eu não havia feito, a água, nunca entrei na água do mar. Segurei na mão dela, sentia as ondas batendo nos meus joelhos, ouvia o som da rebentação. Dei mais um passo, ganhei mais confiança, dei outro passo, sinto um sorriso no meu rosto. Puxei Ela para perto de mim, passei as mãos envolta da cintura dela. Sentia a respiração dela perto do meu rosto, estava acelerada, sabia que ela estava olhando meus olhos, perdi a noção do tempo. Cinco minutos, dez talvez. Não importava, só era eu, Ela, o vento e as ondas.

Voltamos para a casa de praia da família dela, a avó estava fazendo um bolo para o café da tarde, o cheiro de suco de limão exalava da cozinha. Eram por volta das 4 horas, ventava forte, diziam que iria chover. Me deliciei com o sabor de limão levemente tocado de menta e com a textura fofinha de um bolo recém saído do forno. Foi nesse fim de semana que descobri, havia outras formas de ver o mundo e eu não precisava ter olhos para ser feliz.

Passaram-se alguns dias, era uma quarta feira, estávamos sentados em um banco da praça numa região abastada da cidade, sem muito movimento. O nervosismo era visível nas minha mãos, torcia o cabo emborrachado da bengala de um lado para o outro, e eu sabia que Ela tinha percebido. Curiosa ela pergunta "por que você está nervoso?", respondo "posso ver seu rosto?". Ela respondeu positivamente. Começo a passar as pontas dos meus dedos na face dela, lisa e macia - provavelmente rosada pela situação. Quando chego aos olhos sinto o molhado de lágrimas. Continuo com descendo, puxo Ela para perto de mim, sinto novamente a respiração acelerada dela, como na praia. Aquele momento poderia durar horas, não desejava outra coisa, o que havia melhor? Não queria mais ver. Eu havia encontrado novos olhos.

Sete Contos de RéisWhere stories live. Discover now