re·ta·li·a·ção

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A JOVEM SE AGIGANTAVA EM frente à Torre de Babel, enquanto humanos minúsculos se ajoelhavam ante um homem de vestes pomposas. A cópia da pintura a óleo de Pieter Bruegel costumava passar despercebida durante suas sessões de terapia com a Dr.ª LeFurgey, mas naquela consulta em especial, viu-se dedicando alguns minutos de contemplação ao quadro.

Não pôde evitar franzir o nariz em relação à estrutura decadente sem saber exatamente o porquê. A ideia de uma torre tão mal construída conseguir chegar ao céu não só lhe parecia arrogante, como também imbecil.

— Srta. Rivers? — chamou a doutora, de onde estava sentada.

Baby olhou por cima do ombro e viu a nuca de LeFurgey acima do encosto da poltrona, suspirando antes de observar a pintura mais uma vez e voltar ao seu lugar. Seu olhar permaneceu na mulher durante a caminhada em direção ao sofá. Ainda se surpreendia com a capacidade da médica em manter um semblante quase imutável durante as consultas, não importando o tema tratado.

O silêncio pairou sobre o cômodo por um instante enquanto as duas se encaravam, e Baby se viu pensando há quanto tempo se conheciam. Após conseguir fugir de seu marido, mudou-se para outra cidade e começou a terapia em seguida. Não conseguia recordar como chegara até Ekundayo LeFurgey, mas acabou simpatizando com a psiquiatra responsável por ajudá-la a remover conceitos enraizados em sua vida. Conceitos esses que a tornaram refém do esposo abusivo por anos a fio.

Lembrava-se da dependência, como se sua vida fosse deixar de existir caso não estivesse mais ao seu lado. Crescera escutando a importância da boa esposa através dos lábios de seus pais, direcionada pela maré que a impelia a se tornar a figura padrão da mulher romantizada. "Seja uma boa menina ou nunca será feliz", tornando-se um receptáculo de estereótipos. O medo de não cumprir com essa norma a empurrou na direção do suposto príncipe encantado, achando que ele seria o responsável pelo seu "felizes para sempre".

As situações começaram camufladas de preocupação e piadas, ainda na época do namoro. O controle de sua própria vida foi escorrendo aos poucos para as mãos dele até não se ver mais como alguém, mas algo; um bibelô frágil cujo único propósito era o de enfeitar a existência de um homem, para que todos pudessem ignorar quão vil ele era. Isso não foi o suficiente, pois o então marido precisava espezinhá-la, mostrar quem mandava de verdade com tapas e socos, porque a violência emocional já não lhe parecia mais eficiente.

Baby não conseguiu ver isso até, por ironia, ficar sem enxergar por uma semana graças ao rosto inchado. Para os médicos e familiares, apenas um acidente, para ela, o motivo que lhe faltava para fugir. Com a ajuda de uma amiga, colocou tudo o que considerava seu em uma bolsa e se mudou para o outro lado do país. Ainda no percurso, pensou em voltar atrás, mas o medo em encarar a reação do marido ao que fizera foi mais forte. Alugou um quarto de hotel, arranjando um emprego em uma lanchonete cuja dona não lhe fez muitas perguntas. Seu celular, cartões de crédito e redes sociais não existiam mais, desejando que isso também acontecesse com seu antigo "eu".

— Hoje posso dizer que entendo. — Baby quebrou o silêncio, recostando-se no sofá. — Quer dizer, nunca fui culpada de nada, ele foi. Eu nunca mereci aquilo tudo. — Ela passou a mão pela cabeça algumas vezes, desejando que colocar seus pensamentos em ordem fosse tão fácil quanto fazê-lo com os fios rebeldes. — E pensar que via algumas mulheres em situações parecidas com a minha, mas não era capaz de...

— De se colocar no lugar delas? — A Dr.ª LeFurgey completou quando Baby não encontrou as palavras.

— Isso. — A jovem abafou o riso, mordiscando o lábio inferior. — Eu as julgava, achando que não faziam por onde e por isso acabariam como solteironas, infelizes.

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