Eu nunca pensei que sentiria saudade de São Paulo.
Durante muito tempo, tudo o que eu queria era conhecer o mundo que existia além do oceano. Queria descobrir como era a vida dos humanos, conhecer lugares novos, experimentar coisas que, até pouco tempo atrás, eu sequer sabia que existiam.E, quando finalmente tive essa oportunidade, acabei descobrindo que também era possível sentir falta de casa.
Talvez fosse por isso que, enquanto eu terminava de arrumar minhas últimas coisas no apartamento que havia sido nossa casa durante aqueles meses no Rio de Janeiro, sentia uma mistura estranha de felicidade e tristeza. Eu estava feliz por voltar. Mas também não queria ir embora.
Olhei pela janela pela última vez. O céu estava começando a mudar de cor e, ao longe, eu conseguia ver o mar.
O meu mar.
Aquele que, mesmo depois de tanto tempo vivendo como humana, ainda parecia me chamar sempre que eu olhava para ele.
Suspirei.
"Você está pronta?" A voz de Kevin me fez virar. Ele estava parado na porta do quarto, segurando uma das malas.
"Não."
Ele soltou uma risada.
"Como assim não?"
"Não quero ir embora."
"Você acabou de passar meses dizendo que estava morrendo de saudade de São Paulo."
"Eu estava."
"Então qual é o problema?"
Olhei novamente para a janela.
"O Rio."
Kevin se aproximou e ficou ao meu lado.
"Você vai voltar."
"Não é a mesma coisa."
"Por quê?"
"Porque agora eu sei como é morar aqui."
Ele ficou em silêncio por alguns segundos.
"Você gostou daqui?"
"Gostei."
"Então podemos voltar algum dia."
Sorri.
"Você promete?"
"Prometo."
Ele passou o braço pelos meus ombros e beijou minha testa.
"Agora vamos. Antes que eu tenha que pagar mais um mês desse apartamento só porque você não quer ir embora."
Revirei os olhos.
"Você é muito chato."
"Eu sei." Peguei minha bolsa e olhei mais uma vez para o apartamento.
Era estranho pensar que, quando chegamos ali, tudo parecia uma aventura. Kevin tinha ido para o Rio por causa do trabalho. Eu tinha ido com ele. E, sem perceber, acabamos criando uma pequena vida naquele lugar.
Uma rotina.
Uma casa.
Memórias.
Talvez fosse isso que mais doía. Eu sabia que estava indo embora, mas uma parte de mim sentia que estava deixando alguma coisa para trás. Peguei a concha que estava em cima da mesa e a apertei entre os dedos. Ela estava fria. Sempre estava. Mas, de alguma maneira, aquilo me acalmava.
"Vamos?"
Olhei para Kevin.
"Vamos."
O aeroporto estava muito mais cheio do que eu esperava. Pessoas caminhavam apressadas de um lado para o outro, carregando malas, crianças, mochilas e até animais de estimação. Eu gostava de observar tudo aquilo.
YOU ARE READING
The Pearl
FantasyApós anos de solidão no oceano, Pérola, uma sereia encantadora, ganha pernas e uma nova vida no Rio de Janeiro ao lado de seu amor humano. Porém, quando segredos do passado vêm à tona, ela se vê confrontada com a possibilidade de que seu namorado po...
