O chão estava frio quando suas coxas encostaram nele. O inverno ainda não havia chego, mas o outono dava conta de manter todos congelando nas ruas se não usassem seus enormes casacos.
Era julho. Isso significava que as aulas na faculdade não haviam voltado. Os pais trabalhavam fora o dia todo e como ela não tinha emprego, ficava sozinha.
A solidão chegou de tarde. Logo que o céu ficou cinza e o cachorro parou de pedir carinho, indo dormir. A sensação era de que alguém tinha esmagado seu coração e envolvido seu cérebro em plástico. Ela respirou fundo, várias vezes. Mas o pulmão parecia rejeitar o ar que o preenchia.
Com a mão trêmula, ela alcançou o celular em cima da cama. As mensagens do dia anterior, enviadas por ela, ainda não tinham sido respondidas e ela desejou que alguém a tivesse chamado para conversar para ela poder dividir o que estava sentindo naquele momento ou ao menos tentar.
Era a terceira vez na semana que tinha aquela crise. E mais uma vez, ela passava por aquilo sozinha. Sabia que não precisava, mas nunca conseguiu contar a ninguém, nunca soube explicar a sensação e tinha medo de que não fosse compreendida.
Ela queria falar com alguém. Ouvir a respiração de uma pessoa, como se estivesse perto dela. Queria parar de se sentir tão solitária.
Pelo celular, entrou em um chat do CVV. Suspirou quando viu a enorme fila em que foi colocada. Haviam mais de trezentas pessoas na sua frente, aquilo significava que haviam poucas pessoas atendendo. Ou então. . . haviam muitas pessoas precisando de ajuda, o que era ainda mais preocupante.
Caminhou até o espelho que repousava no canto do quarto e se assustou com a própria imagem. Os olhos estavam fundos, o cabelo bagunçado e o rosto molhado por conta das lágrimas. Ela encarou as unhas roídas e pegou o celular que tinha deixado no chão. Desistiu do chat e resolveu ligar.
Enquanto esperava um atendente, sentiu que estava sonhando ou que estava tendo um pesadelo, pois nunca pensou que poderia ligar para aquele número.
Ela repetiu o próprio nome, diversas vezes, para saber que aquilo era real.
O telefone fez um pequeno eco.
Ela já podia começar a falar.
- Eu não tenho me sentido bem ultimamente. – começou - Me sinto a pessoa mais esquisita do mundo. O tipo de pessoa que ninguém senta perto na hora de comer, porque não notam a presença ou que as pessoas passam trombando pelo corredor porque não faz diferença desviar. Eu não tenho vontade de conversar com meus amigos, porque eu sinto que sou um enorme peso nas costas deles e não costumo sair porque tenho odiado meu corpo e minhas roupas e parece que todos me olham com pena.
Ela suspirou e o atendente do outro lado da linha parecia respirar fundo.
- Você sabe dizer porque tem se sentido assim?
Ela se lembrou da festa que tinha ido na semana anterior.
Alguns amigos decidiram fazer uma social enquanto os pais tinham viajado e encheram a casa de pessoas. Ela foi a festa apenas para desencargo de consciência, já que a amiga não conseguia falar de outra coisa quando elas conversavam.
Antissocial. Era esse o seu descritivo. Dificilmente ela madrugava em festas, costumava voltar para casa antes de meia-noite. Não conversava com ninguém, mal bebia e comia, não dançava.
Todas as garotas estavam usando roupas bonitas e ela com sua calça jeans, camiseta larga e tênis.
- Eu fui em uma festa sábado passado.
- Foi divertido?
- Não. Eu nunca me senti tão sufocada e eu me senti um patinho feio.
- Quando você diz que se sentiu sufocada, o que quer dizer?
Ela respirou uma, duas, três vezes. E quando respondeu, não parecia ser ela falando, parecia outra pessoa, como se ela estivesse com aquele corpo de aluguel, apenas observando, como se nem a vida fosse sua.
- Tinham muitas pessoas em um lugar tão pequeno, elas esbarravam em mim e estavam completamente bêbadas.
KAMU SEDANG MEMBACA
Tudo aquilo que não vemos
Fiksi UmumPara entender a humanidade, é preciso ouvir cada individuo e entrar dentro do seu cosciente, onde ele esconde tudo sobre si mesmo. Não é fácil conviver em sociedade. Mas é ainda pior conviver com os próprios defeitos ou problemas.
