Acorde

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- Não corre, Julieta! Não corre! Julieta! Julieta! - o suor pingava de sua testa e ele limpava com o dorso da mão

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- Não corre, Julieta! Não corre! Julieta! Julieta! - o suor pingava de sua testa e ele limpava com o dorso da mão. A garota ainda corria em disparado. Mas o mais estranho é que ele não entendia porque via a linha de chegada cada vez mais longe, ou melhor, a linha de chegada ia desaparecendo.

- Tente! - a voz ecoava por entre o vento que trazia a melodia através das ondas sonoras, era a voz de Julieta. - Tente me acompanhar, meu querido. - ela ria com gosto. Em sua mão tinha um sorvete de chocolate que ia derretendo por conta do sol forte e, com certeza, pensou o homem, cheio de terra, olha só o que toda essa ventania traz!

Ele não conseguia entender, não conseguia entender mesmo o porquê de uma mulher de quase quarenta anos de idade, estar agindo feito uma menininha afoita de dez. Curioso. Não entendia também o porquê de ele estar correndo atrás dela, gritando seu nome, se esbaforindo. Ela parecia incansável. Quanto à ele, bem, agora começava a ter aquela dor que temos quando corremos demais. Ultrajante, relutava e reclamava conscientemente, pois seu subconsciente dizia para que ele corresse, corresse ainda mais.

- Pare, Julieta, vamos conversar. Estou perdendo o fôlego e a dignidade. Estou deveras quase morrendo. - ela não parou, mas desviou seu rumo, e encurtou o passo. Logo ele se viu numa sala, tinha muitos quadros. Muitos mesmo. Olhou e Julieta estava parada em frente à um quadro. Ele foi até lá. Dessa vez ela não arredou o pé. Se manteve ali.

- Me lembro desse dia. - disse ela percebendo a chegada dele. - Você se lembra também?

- Claro que lembro! - ele disse de mansinho para não parecer que estava quase para ter um ataque. Tamanha a falta de ar que havia em seus pulmões.

- Te conheci nesse dia. Era um lindo dia de verão. Eu lembro de olhar para o céu e me imaginar como uma ave. Linda e pomposa, do alto elas vêem a beleza do Deus Criador. - uma lágrima solitária escorreu por seu juvenil rosto macio.

- Te vi com suas amigas no parque da cidade, me lembro. Era costume aos sábados as famílias e amigos se reunirem lá para fazer o típico piquenique, tolha xadrez, cores como vermelho e branco, cestinha feita de um tipo qualquer de palha. Você estava sentada à direita de Marly, minha vizinha, minha irmã insistiu em ir até lá, elas eram inseparáveis, eu fui, mas não consegui olhar mais nada além de você. Linda e perfumada. As flores sentiam inveja, oh, sim elas sentiam.

- Você sempre foi romântico, eu me lembro. Gostava de ir com você até aquela cafeteria, aquela ao lado da biblioteca.

- Hum!

- Hum?

- Aquela biblioteca que nós nos beijamos pela primeira vez? - ela meneou a cabeça em afirmação e me puxou pelo pulso até outro grande quadro.

O quadro retratava eles em seu primeiro beijo, para ambos foi mágico, eles antes tiveram diversos namorados, ambos eram beijoqueiros, mas não entendiam bem o porquê, até que conheceram um ao outro. Ela usava um macacão com shorts jeans curtos, a blusa era de listras pretas e brancas fininhas, de mangas longas. Nos pés um tênis branco enfeitava as pernas e no tornozelo, uma tornozeleira dourada ganhava vida, era tão fininha, mas ficava graciosa nela, era o que ele achava. Era assim que ela estava no dia do beijo deles.

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