Quando, agora, percebi que meu fim havia começado, lembro bem que eu estava sentada na beira de nossa cama de casal - do Artur e eu -, olhando bem pro nosso porta-retrato apoiado ao lado da tv de 32 polegadas. Eu conseguia ver meu reflexo pela tela desligada. Sem sorrir, sem demonstrar qualquer sinal de emoção, só vendo meus seios cor de leite a mostra e ainda com cheiro do sabonete após meu último banho. Mal podia esperar que Artur chegasse para devorá-los como sempre o fazia. Eu amava.
O clima do quarto mudou de morno pra frio e, como toda história de amor tem um fim, o meu começou sem ser devorada. Pois Artur não havia chegado na hora habitual em que o fazia para me fazer sentida. Eu podia descruzar as pernas nuas e passar as mãos ali, com poucos pelos, e imaginá-lo descendo os lábios quentes pelos meus, me inundando com o que sabia fazer de melhor: tocar minha pele. Minhas unhas deslizaram e eu acordei do transe, sozinha. Eram 19h45. Artur estava quarenta e cinco minutos atrasado. Parte de mim já estava agonizada.
De repente, o celular começou a tocar e imaginei que fosse ele, dando uma desculpa. Mas não era. O número era desconhecido e atendi, sem muito entusiasmo.
- Oi, Joana?
- Sim? Quem fala?
O policial se apresentou como oficial Pavonê com uma voz grossa e rouca jogando em mim toda a informação que eu, em nenhum momento, estivera preparada pra saber.
- Os dois morreram no mesmo ato. Ele e ela. - Antes que ele terminasse, meus olhos embaçavam de raiva e tristeza enquanto eu caía numa grande fenda. - Foram encontrados nus e já sem vida. Homicídio. Há duas marcas de bala.
Sentia-me morrendo junto, tentando absorver tudo o que ele dizia como se tivesse engolindo alguma comida ruim.
- Ainda está aí, srta Joana? - perguntou, logo após meu longo silêncio.
- Sim. - Desejaria não estar, pensei enquanto cada lágrima escorria como pedra, arranhando meu rosto.
Encerrada a ligação, olhei para minhas pernas desnudas. As unhas de minha mão esquerda havia deixado marcas de tanto que cocei - até sangrar. Nenhum sentido pertencia ao meu corpo naquele momento.
Só levantei, cravando com força meus pés no chão e coloquei meu vestido de seda branco sem nada por baixo. Encolhi meu corpo em posição fetal no box do banheiro. Era frio e úmido lá. As marcas de arranhão mancharam o vestido deixando listras vermelhas. De vez em quando, caía um pingo de água do chuveiro. Eu permaneci imóvel.
Com minhas mãos presas entre as pernas, movimento um dos dedos e sinto um arrepio. E é ali, bem onde imaginei que Artur pudesse estar naquela noite, que eu caio na desgraça. A miséria de sofrer, de ter prazer sozinha para preencher algum vazio. Mas quando o líquido escorre pela minha coxa, é nele que eu penso, que eu sonho - deitada no chão do box.
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Obituário
Short StoryConto sobre o cérebro e coração de uma mulher e o marido que deixou de ser da sua vida.
