A Despedida

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Um anjo me veio à noitinha. Confesso que tinha minhas dúvidas quanto à existência desses seres, nunca imaginei que algum dia pudesse me deparar com um. Sempre entendi como sendo loucura ou delírio quando aquelas pessoas, na igreja, falavam sobre anjos, Deus, espíritos e tudo mais. Mas esse era diferente do que me falavam, ele não tinha asas. Para falar a verdade, parecia uma senhora de uns sessenta anos usando moletom cinza, uma blusa branca, e um colar de pérolas com três voltas. A primeira vez que a vi, estava sentada no banco de trás do meu carro, enquanto eu dirigia do trabalho para casa. Mas daquela vez, se limitou a dizer que tinha um recado. Já fazia um ano desde daquele encontro inesperado que quase me fez bater o veículo. Julguei que fora o estresse, pedi umas férias atrasadas e nunca mais vi a dita cuja. Mas hoje, nesse dia chuvoso, onde eu estava atarefado com um trabalho importante do setor, ela apareceu outra vez.

- Olá, como você tem passado?

- Só pode ser fruto da minha imaginação. – Fiquei pensativo. – Que tipo de ser é você?

- Pode me chamar de muitas coisas, mas normalmente costumo me identificar com o termo "anjo".

- Como um anjo, não deveria necessariamente saber como eu tenho passado?

- Eu sei, o que eu fiz foi algo parecido com.... Educação. Sabe aquele hábito esquisito que faz com que repitamos palavras sem pensar muito na ocasião? "Como você está?" Sabe, uma vez eu perguntei se estava tudo bem a uma viúva no velório de seu marido. – Ela levou a mão a boca e sorriu incontidamente. – Lembro-me que maldisse esse hábito no dia, mas hoje, não me importo muito.

- Eu vou morrer? É por isso que está aqui? – Fui direto ao ponto, eu estava temeroso que fosse isso, queria que fosse só uma lição a ser aprendida, como nos contos de natal.

- Você irá se despedir em breve. – Ela falava com muita serenidade, segurando seu colar, passava o dedo pelas três voltas, de baixo para cima e de cima para baixo, exatamente nessa ordem.

- Tem certeza? – Precisava perguntar, mais ao invés de responder, ela apenas sorriu. – Eu não quero deixar a minha família. Tenho tanta coisa a fazer ainda. Preciso levar minha filha na escola amanhã, bem cedo, ela vai competir pela primeira vez no futsal. Meu filho está organizando um campeonato e eu fiquei de ajudá-lo. Minha esposa me pediu para comprar leite amanhã e já começamos a pagar a viagem de dezembro para visitarmos a família que mora longe.

- Uma longa agenda, mas é chegada a hora.

- Eu não posso... Não posso deixá-los. Poderia me dar mais algumas semanas, apenas para eu deixar tudo em ordem?

- Não sou eu quem diz quando, apenas venho ajudar na despedida quando a hora chega.

- Por favor, eu imploro. – Ajoelhei-me em lágrimas.

- Me responda uma coisa e poderá ter alguns minutos a mais.

- Qualquer coisa.

- Por que não quer se despedir?

- Porque vou morrer de saudades.

- Bem apropriado, mas morrer você iria de qualquer forma. – Ela sorriu? Como ela podia sorrir? Se o meu coração estava partido.

- Se pudesse se despedir de uma só pessoa, quem seria? – Ela perguntou agora alisando as contas do colar e levantando-se risonha do móvel em que estava sentada. – Vou lhe dar um dia para pensar em alguém, mas apenas um. Acho que é mais do que necessário.

A despedidaStories to obsess over. Discover now