- Talvez você esteja precisando sair Nataly. Conhecer pessoas novas me parece uma boa maneira de se distrair. – disse Lili.
- Lili, as provas finais começam semana que vem, não quero correr o risco de ir mal nelas. – Afinal, ninguém merece ter a sorte de pegar exame no fim do terceiro colegial.
Digamos que eu não seja um crânio quando o assunto é exatas e eu realmente estava necessitada de notas azuis nas provas finais.
Lili é casada com meu pai. Por ser uns quinze anos mais nova que ele, Liliane tornou-se uma "irmã-madrasta mais velha" e como toda irmã mais velha, ela tem o incrível dom de dar ordens e sentir-se superior. Na maior parte das vezes, Lili me trata bem, não pega no meu pé, nem faz muita questão que eu vá bem na escola. Para ser sincera, todas suas cobranças relacionadas a mim, dizem respeito ao dinheiro gasto por meu pai comigo. Talvez, como toda irmã mais velha, ela só queira gastar o dinheiro consigo.
No meio dessa situação, tem Caroline, minha irmã gêmea. Eu diria que temos em comum apenas a fisionomia, uma vez que Carl (como todos a conhecem), é super inteligente, popular, engraçada e pode ter quem quiser a seus pés. Eu faço o tipo mais retraída, sabe? Quieta, paciente, insegura, tímida e talvez um tanto bobinha.
E meu pai, bem... ele é um homem de negócios. Está sempre viajando a trabalho, pensando no trabalho, ou trabalhando em casa. No que ele trabalha? Não sei. Uns dez anos atrás tive que entrevista-lo e questionar a respeito da sua profissão. Papai apenas disse: Sou um homem de negócios, trabalho com o mercado financeiro e nada disso pode ser interessante a uma criança.
Nesse dia fui obrigada a criar meu pai, escolher sua profissão, seus hábitos, comida e cor preferida e estilo musical, um pai que alimentei durante minha vida inteira, por mais irreal que fosse.
A parte boa de criar um pai é que você pode sempre escolher características que te agradam, como ler livros de romance, comer lasanha de berinjela, azul turquesa e ser fã dos Jonas Brothers.
Já a parte ruim de criar um pai aos sete anos de idade, diz respeito a você abortar a missão "trabalho nota dez" ao dizer que seu pai é fã de Jonas Brothers. Obviamente minha professora não acreditou em nada daquilo, uma vez que o trabalho de Carl estava completamente diferente do meu e milhões de vezes mais coerente. Sim, Carl sempre foi mais esperta.
Mesmo zerando o trabalho, acreditei na existência daquele pai por alguns bons anos, até o dia que o vi usando uma camiseta dos Beatles, o que me fez pensar que todos aqueles trabalhos infantis e sem graça dos Jonas Brothers em papel azul turquesa não tivessem valido nada.
Um parêntesis dessa estranha história a qual chamo de minha, tem minha mãe. Nunca tive a oportunidade de chama-la assim, nem sei exatamente onde ela está, só sei que está aí em algum lugar.
Quando Carl e eu tínhamos apenas 10 meses de vida, mamãe foi internada em uma clínica de reabilitação psiquiátrica, porém papai nunca nos contou o real motivo dessa separação e muito menos nos levou para visita-la. Assim que comecei frequentar a escola e perceber que todos tinham mãe, questionei papai sobre o paradeiro da minha, e ele apenas disse que ela era louca e loucos não podem ter filhos.
Aquilo me chocou, então decidi esconder de mim essa parte da minha história, apenas para não me machucar.
Lili saiu do quarto, deixando-nos a sós.
- Tem uma festa amanhã, na casa do Dy, um amigo meu. Pode ir comigo se quiser. – disse Carl enquanto respondia uma mensagem de texto em seu celular.
- Obrigada Carl, mas não me parece uma boa. – respondi.
- Vão ter vários gatos, bobinha. – Ela tinha o péssimo hábito de me chamar de "bobinha". Isso faz parecer que eu sou uma menininha de dez anos de idade, que acabou de ganhar um brinquedo novo e não sabe usá-lo, quando no caso, eu sou a irmã mais velha, por alguns minutos, mas sou.
- Estou bem sozinha. – insisti. Talvez meu cabelo preto e meus olhos cor de mel não fossem tão atraentes quanto os de Carl.
Alguns anos passados, meu pai me levou ao psicólogo, pois achava que eu era depressiva. Então o profissional lhe disse que eu era extremamente saudável, não tinha nenhum quadro de depressão, era apenas meu jeito. Mas até hoje ele e Lili não aceitam esse discurso. Insistem em me empurrar para fora de casa sempre que podem.
- Vamos, Nathan Karter confirmou presença. Você não vai perder, vai? – questionou ela agora me olhando nos olhos.
Não sei encaixar como defeito ou qualidade, o fato é que eu não sei negar um pedido quando me olham nos olhos.
- Ah, bem, não sei quem é Nathan Karter. – respondi no intuito de mudar o foco da conversa para não ter que negar.
- Nathan é lindo, eu diria que o mais bonito da cidade. Todas matariam para tê-lo a seus pés.
E eu mataria para não ter que ir a essa festa.
- Tenho um bom livro para ler. – respondi.
- Nat, eu raramente te peço alguma coisa, mas se você não for, minhas chances de ir são quase nulas e eu não posso perder a chance de beijar Nathan Karter, entende? – disse ela, levantando-se de sua cama e caminhando até a minha.
Bem, para falar a verdade não. Pensei. Então apenas respondi:
- Entendo.
- Podemos fazer um acordo... – sugeriu.
- Eu tenho uma proposta. – afirmei, agora olhando em seus olhos.
- Então...
- Eu vou à festa com você e em troca estuda comigo para as provas de exatas.
- Sua proposta é careta, mas por falta de opção vou aceitar. – respondeu Carl.
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A menina que não tinha espelho
Teen FictionUm sonho, um desejo, um crime. Imagine viver por dezessete anos acerca de pessoas que nunca existiram? Cultivar sonhos impossíveis? Acreditar em lembranças idealizadas? Provar o sabor de uma paixão e ver tudo que tem acabar aos poucos? Nataly Mill...
