CAPÍTULO UM - O convite

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- Talvez você esteja precisando sair Nataly. Conhecer pessoas novas me parece uma boa maneira de se distrair. – disse Lili.
​- Lili, as provas finais começam semana que vem, não quero correr o risco de ir mal nelas. – Afinal, ninguém merece ter a sorte de pegar exame no fim do terceiro colegial.
​ Digamos que eu não seja um crânio quando o assunto é exatas e eu realmente estava necessitada de notas azuis nas provas finais.
​ Lili é casada com meu pai. Por ser uns quinze anos mais nova que ele, Liliane tornou-se uma "irmã-madrasta mais velha" e como toda irmã mais velha, ela tem o incrível dom de dar ordens e sentir-se superior. Na maior parte das vezes, Lili me trata bem, não pega no meu pé, nem faz muita questão que eu vá bem na escola. Para ser sincera, todas suas cobranças relacionadas a mim, dizem respeito ao dinheiro gasto por meu pai comigo. Talvez, como toda irmã mais velha, ela só queira gastar o dinheiro consigo.
​ No meio dessa situação, tem Caroline, minha irmã gêmea. Eu diria que temos em comum apenas a fisionomia, uma vez que Carl (como todos a conhecem), é super inteligente, popular, engraçada e pode ter quem quiser a seus pés. Eu faço o tipo mais retraída, sabe? Quieta, paciente, insegura, tímida e talvez um tanto bobinha.
​ E meu pai, bem... ele é um homem de negócios. Está sempre viajando a trabalho, pensando no trabalho, ou trabalhando em casa. No que ele trabalha? Não sei. Uns dez anos atrás tive que entrevista-lo e questionar a respeito da sua profissão. Papai apenas disse: Sou um homem de negócios, trabalho com o mercado financeiro e nada disso pode ser interessante a uma criança.
​ Nesse dia fui obrigada a criar meu pai, escolher sua profissão, seus hábitos, comida e cor preferida e estilo musical, um pai que alimentei durante minha vida inteira, por mais irreal que fosse.
​ A parte boa de criar um pai é que você pode sempre escolher características que te agradam, como ler livros de romance, comer lasanha de berinjela, azul turquesa e ser fã dos Jonas Brothers.
​ Já a parte ruim de criar um pai aos sete anos de idade, diz respeito a você abortar a missão "trabalho nota dez" ao dizer que seu pai é fã de Jonas Brothers. Obviamente minha professora não acreditou em nada daquilo, uma vez que o trabalho de Carl estava completamente diferente do meu e milhões de vezes mais coerente. Sim, Carl sempre foi mais esperta.
​ Mesmo zerando o trabalho, acreditei na existência daquele pai por alguns bons anos, até o dia que o vi usando uma camiseta dos Beatles, o que me fez pensar que todos aqueles trabalhos infantis e sem graça dos Jonas Brothers em papel azul turquesa não tivessem valido nada.
Um parêntesis dessa estranha história a qual chamo de minha, tem minha mãe. Nunca tive a oportunidade de chama-la assim, nem sei exatamente onde ela está, só sei que está aí em algum lugar.
Quando Carl e eu tínhamos apenas 10 meses de vida, mamãe foi internada em uma clínica de reabilitação psiquiátrica, porém papai nunca nos contou o real motivo dessa separação e muito menos nos levou para visita-la. Assim que comecei frequentar a escola e perceber que todos tinham mãe, questionei papai sobre o paradeiro da minha, e ele apenas disse que ela era louca e loucos não podem ter filhos.
Aquilo me chocou, então decidi esconder de mim essa parte da minha história, apenas para não me machucar.
​ Lili saiu do quarto, deixando-nos a sós.
​- Tem uma festa amanhã, na casa do Dy, um amigo meu. Pode ir comigo se quiser. – disse Carl enquanto respondia uma mensagem de texto em seu celular.
​- Obrigada Carl, mas não me parece uma boa. – respondi.
​- Vão ter vários gatos, bobinha. – Ela tinha o péssimo hábito de me chamar de "bobinha". Isso faz parecer que eu sou uma menininha de dez anos de idade, que acabou de ganhar um brinquedo novo e não sabe usá-lo, quando no caso, eu sou a irmã mais velha, por alguns minutos, mas sou.
​ - Estou bem sozinha. – insisti. Talvez meu cabelo preto e meus olhos cor de mel não fossem tão atraentes quanto os de Carl.
​ Alguns anos passados, meu pai me levou ao psicólogo, pois  achava que eu era depressiva. Então o profissional lhe disse que eu era extremamente saudável, não tinha nenhum quadro de depressão, era apenas meu jeito. Mas até hoje ele e Lili não aceitam  esse discurso. Insistem em me empurrar para fora de casa sempre que podem.
​- Vamos, Nathan Karter confirmou presença. Você não vai perder, vai? – questionou ela agora me olhando nos olhos.
​ Não sei encaixar como defeito ou qualidade, o fato é que eu não sei negar um pedido quando me olham nos olhos.
​- Ah, bem, não sei quem é Nathan Karter. – respondi no intuito de mudar o foco da conversa para não ter que negar.
​ - Nathan é lindo, eu diria que o mais bonito da cidade. Todas matariam para tê-lo a seus pés.
​ E eu mataria para não ter que ir a essa festa.
​ - Tenho um bom livro para ler. – respondi.
​ - Nat, eu raramente te peço alguma coisa, mas se você não for, minhas chances de ir são quase nulas e eu não posso perder a chance de beijar  Nathan Karter, entende? – disse ela, levantando-se de sua cama e caminhando até a minha.
​ Bem, para falar a verdade não. Pensei. Então apenas respondi:
​ - Entendo.
​- Podemos fazer um acordo... – sugeriu.
​ - Eu tenho uma proposta. – afirmei, agora olhando em seus olhos.
​ - Então...
​- Eu vou à festa com você e em troca estuda comigo para as provas de exatas.
​ - Sua proposta é careta, mas por falta de opção vou aceitar. – respondeu Carl.

A menina que não tinha espelho Stories to obsess over. Discover now