Prólogo

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Por um momento, permita-se caminhar pela biblioteca real de Morat. Se não a conhece — ou mesmo que a conheça — pense em si abrindo a porta de carvalho entalhado, sem trancas, maçanetas ou aldravas, com um rangido surdo, seco após os anos de trincos velhos. Possivelmente o velho bibliotecário reclamará, como sempre o faz, mas logo a presença de alguém novo o fará abrir um sorriso de dentes faltando e recebê-lo com maestria de um nobre.

Ele lhe dará uma lamparina, se estiver escuro o suficiente, ou simplesmente lhe fará uma mesura de passagem em meio a um exuberante hall de entrada, iluminado por calorosa cor acobreada. Você se encontrará dando passadas sobre a madeira de mogno que forra o assoalho, observando as paredes de livros e as colunas de pedra, que aparecem aqui e acolá, adornadas com alguma bela moldura e uma pintura feita por mãos hábeis e mente afiada.

Haverá muitas poltronas, muitas cadeiras, muitas mesas e lamparinas, estejam elas acesas ou apagadas, como também diversas estantes que de tão altas parecem alcançar o teto. Os lustres são vítreos, transparentes, ornados e tão belos que nada em todo o reino superará seu desenho. O bibliotecário ficará com seus olhos velhos cheios d'água e agradecerá por finalmente haver um rei que valoriza o conhecimento de sua população e a guia não pela força, mas pela sensatez, astúcia e lealdade de suas decisões.

Ele dirá também que a biblioteca, apesar de pertencer à família real, é aberta para todo o povo que desejar algum conhecimento, com a condição de que cuidem tão bem dos livros quanto cuidariam de seus próprios tesouros. E ele não está mentindo.

Porém nada disso interessa agora.

Durante esse pequeno passeio por entre o labirinto de estantes, as poltronas de peles, as lamparinas de óleo e a falação do velho a única coisa que interessa é uma estante.

Uma única estante em meio às centenas.

A menor e mais mal iluminada, um palmo torta e com prateleiras faltando e, de todos os livros de dorsos lustrosos, apenas um é o que lhe atrai. Um livro de capa de madeira e páginas de alguma mistura vegetal, sua tinta reluz dourada na capa, e se folheá-lo por um segundo (mesmo que o bibliotecário odeie quem o faça) poderá notar que nenhuma página sequer está em mal estado, apenas amareladas de modo uniforme.

Este livro contém um aviso e uma história.

O aviso dirá com sua grafia delicada e robusta ao mesmo tempo:

Não ouse utilizar do conhecimento obtido para fazer mal aos povos citados.

A história é a que lerá assim que virar a página.

Da tua Rosa [DEGUSTAÇÃO]Mga kuwentong kahuhumalingan mo. Tumuklas ngayon