1. o ponto

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"Passou!"
Saiu correndo ao perceber o ônibus vermelho passando no fim da rua que cruzava com a avenida. O ônibus pararia bem em frente ao postinho de saúde do bairro. Ali, logo em frente, meio quarteirão somente. O postinho era circundado por uma cerca metálica com elos que formavam losangos. Por ela ele conseguia ver que havia ainda umas três pessoas que estavam subindo no ônibus. Dava tempo! Foi quando a buzina e o barulho subito do freio o fez parar de correr e seus olhos se viraram para o carro que estava entrando pelo portão dos fundos do postinho e que quase o atropelara. Na sua pressa e distração, olhos focados na parada do ônibus, não havia prestado atenção no carro que entrava. Na pressa de alcançar o ônibus quase que precisaria de uma ambulância.
Virou-se novamente para o ponto e praguejou entre os dentes, ao ver entre os elos metálicos da cerca o ônibus saindo. Restava-lhe apenas frustação e suor.

Não era a primeira vez que isso acontecia, nem seria a última, mas ele realmente havia acreditado que podia ter alcançado. "Tudo bem" pensou, restava-lhe aguardar o próximo. Se não estivesse atrasado, passaria dentro de poucos minutos. Pelo menos não precisaria de uma ambulância.

Após chegar ofegante no ponto e realizar o esforço inútil para chegar a tempo, seus sentidos se voltaram para o movimento das pessoas que ali continuavam apesar da passagem do ônibus. Aparentemente, nem todos que estão no ponto estão à espera do ônibus.

No ponto, sua mente então derivou subitamente os seus pensamentos para algo que até então nunca tinha se perguntado. As mentes, às vezes, são assim imprevisíveis na maneira de associar ideias e reflexões. Começou a pensar sobre a palavra ponto. Achava a utilização da palavra curiosa para designar o lugar. De onde teria vindo a nomenclatura? Sempre o divertiu as correlações que se podia fazer entre palavras e seus significados diversos . Ponto de crochê, ponto de fuga, ponto G, ponto final...havia até mesmo um deus grego chamado Ponto, teria sido ele o ponto inicial? Até que um dia alguém determinou que as pessoas esperariam a chegado do ônibus em um PONTO. Ou será que o conceito inicial não era um ponto e teria evoluído, a tal ponto, para um singular ponto de ônibus? Alguém em algum lugar devia saber, mas ele ficaria na ignorância.

Foi despertado do seu devaneio por uma mão que pousou no seu braço. Voltara sua atenção para a pessoa que lhe interpelava com um folheto na mão. "Ele é a resposta pra tudo." Disse o senhor estendo o folheto que ele pegava quase por reflexo. "Ele Quem?" Deu uma olhada no folheto e ao perceber a figura de um homem barbudo de túnica branca e um versículo identificado logo abaixo da passagem, teve sua resposta. "Claro!".

A incrível capacidade das pessoas em acreditar tão facilmente em uma resposta divina sempre o intrigava. A verdade tão confiante sem nenhuma comprovação era uma tentadora. Um bengala para se apoiar em tempos difíceis. Muito mais do que as incertezas pronunciadas pela ciência cujas comprovações não podiam ir além dos fatos. O senhorzinho já havia sumido quando tirou os olhos do folheto e já estava entregando folhetos para outros transeuntes.

Mas ainda havia uma movimentação peculiar no ponto. Pessoas que não se interessavam em pegar o ônibus estavam ali parados e aguardando. O que mais pessoas podiam aguardar num ponto de ônibus que não fosse o próprio ônibus? Aguardavam aqueles que iam embarcar e, também, outros transeuntes que perambulam por ali, que talvez se dispusessem a utilizar esse tempo perdido para se interessar em seus discursos pré moldados no intuito de vender-lhes algo.

Já havia notado algumas vezes antes, como observador curioso e silencioso, as atividades mercantis para o qual elegeram o ponto como ponto estratégico para suas atividades. Ele conseguia identificar facilmente uma parcela do grupo pelos folders com o nome de sua ordem religiosa bem chamativo acampada ali quase todas as manhãs afim de transmitir a palavra da salvação aos seculares que ali esperavam no ponto.

Havia também recentemente escolhido o mesmo lugar uma equipe de vendedores de uma construtora que vendiam apartamentos baratos. Tanto os religiosos quanto os vendedores disputavam o pequeno espaço de sombra debaixo de uma pequena árvore plantada do outro lado da cerca que ficava ao lado do ponto. A árvore tinha alguns galhos que, ultrapassando a cerca, fornecia aquele pequeno espaço com sombra.

Essa imagem fazia-lhe pensar na semelhança que poderia ter entre os dois grupos. Os objectivos almejados por ambos não seriam tão diferentes? Até que ponto devemos comprar o nosso espaço no céu? Até que ponto devemos nos sacrificar para conquistarmos o nosso espaço na terra? Nossas crenças definem muito dos nossos objetivos em vida. O legado de líderes religiosos de todos os tempos se tornou uma corrida para quem segue mais o dogma do que o outro. E se esquecem de seguir o que mais importa: amor e tolerância. E quem vai subir nesse ônibus? Outra divagação.

O ponto em si era um poste pintado. Sem teto, sem nenhuma proteção para a chuva ou para o sol. E o calor dessa terra brasileira é demasiado quente! Não tem onde se esconder. Bom, na verdade, até tem. Além da pequena sombra já bem lotada, tem a sombra de um poste de luz bem em frente ao ponto. Se for bem magrinho até consegue escapar do sol. E como estava perdido em suas divagações nem havia percebido que o ônibus estava chegando e sua espera se acabara.

Embarcando!

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