Ela sempre foi uma mulher muito sonhadora e amante de belas artes, sabia apreciar uma boa música, aquela que arrepiava seu corpo. Aos seus 53 anos, não aparentava ter essa idade. Zane ainda se considerava uma garotinha, dizia ter uma alma de criança. Uma mulher negra, que na sua idade ainda era muito vaidosa, seus cabelos provocavam grande admiração das pessoas. Costumava usar brincos de argola, um belo batom e unhas sempre pintadas. Ela sabia como realmente se cuidar. Sabia o tipo de roupa que se adequava ao estilo próprio combinado com uma pitada do gueto.
Durante toda sua vida trabalhou muito, esforçou-se ao máximo para criar seus filhos, para que pudessem ter uma boa formação e uma vida estabilizada. Abandonada pela própria sorte, Zane vivia sozinha em uma residência isolada da cidade, seus filhos a visitavam apenas quando achavam que fosse conveniente a eles. Seus relacionamentos eram pouco duradouros, dizia estar velha demais para construir uma vida a dois.
Sua única companhia era sua amiga Suzete, totalmente diferente de Zane, uma loira de estatura média, cabelos encaracolados à altura dos ombros. Zane vivia a lhe atormentar para que usasse maquiagem já que era muito pálida. Suzete, diferente de Zane, não ligava para belas artes, passava as tardes assistindo às novelas e lendo revistas de fofocas. Ainda sustentava o filho mais novo de 29 anos que não parava em empregos.
Apesar das diferenças, sempre foram grandes amigas, desde o tempo do colegial. Quando as duas se encontravam ficavam horas conversando sobre a juventude, sobre a vida que sonhavam ter quando fossem adultas. As lembranças da infância tinham um gosto nostálgico, como foi bom ser criança, pensava consigo mesma. Sua mãe, sempre lhe dizia: "aproveite sua mocidade, depois as coisas tornam-se difíceis".
Zane sempre voltava da casa de Suzete meio embriagada. Um dia, ao se deitar, sentiu um mal-estar e pensara que fosse causado pelo danado do álcool, mas dias depois o "mal-estar" continuou e Suzete a levou ao hospital mais próximo que havia. Ficaram horas esperando, pois o lugar estava lotado, e elas não tinham dinheiro para pagar um particular. Naquele dia, a vida de Zane mudara totalmente, a vida havia sido muito má com ela. Fora diagnosticada com neoplasia maligna pulmonar. Zane fumava desde os treze anos de idade, assim como Suzete. Foi orientada a parar muitas vezes, mas jamais pensou em parar, afinal era uma das únicas coisas que ainda ela tinha e a fazia se sentir bem.
Suzete não acreditava que sua amiga estava tão doente enquanto ela gozava de boa saúde. Depois daquele dia, as coisas pouco mudaram, Zane apenas decidiu ficar mais sóbria do que embriagada. E em nenhum momento disse que pararia de fumar. Se em toda sua vida fumou, essa não seria a hora, dizia sempre a Suzete. Zane morava em uma casa de madeira, o assoalho era tão lustrado que podia olhar seu reflexo nele. Os corredores eram extensos, as paredes eram cobertas de papel de parede ao estilo mais rústico. Em sua sala havia muitos discos de vinil, considerados por ela sua relíquia. Adorava um bom jazz.
Sentada em sua poltrona, um presente de Suzete quando conquistou seus 50 anos, fumou seu cigarro, enquanto apreciava o som de "Ain't Got No, I Got Life" e as estrelas no céu iluminado. Dali onde estava tinha uma bela vista, a brisa da noite batia em seus cabelos que pouco se mexiam, dali também podia apreciar o quanto a mãe natureza fazia um belo trabalho, e imaginava como as aranhas podiam tecer teias tão maravilhosas em qualquer lugar. Ao voltar sua cabeça para dentro da sala, começou a olhar as fotografias penduradas nas paredes, algumas muito antigas e maltratadas pelo tempo. Aquela sala, para Zane, era como se fosse um santuário, tudo o que lhe agradava estava ali, um pedaço de todos os momentos que viveu, desde palitos de picolé a fios de cabelos de suas crianças que teve todo o cuidado de armazenar e emoldurar. Ela se preocupava em como que as coisas ficariam quando ela partisse. Seria uma pena se fosse tudo para a lata de lixo, ou para o fogo, pois para seus filhos tudo aquilo não passava de meros pedaços de tralhas. Naquele instante, Zane queria poder sentir todas as sensações juntas novamente de tudo o que viveu.
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Devaneios
Short StoryHistórias que se entrelaçam e nos fazem refletir como nada na vida é por acaso.
