A chama crepitava fracamente entre eles, o grande olho amarelado de Carvão fixava o fogo com fascínio enquanto o pequeno demónio guardava as mãos frente ao fogo para não sucumbir ao frio mortífero da noite nas montanhas. No meio do silencio pesado e penosamente contínuo, Mordechai começava a s'impacientar. "Fala puto!" Rojenou o homen, as mãos ainda cobertas de sangue. "Eu e Carvão tivemos de matar bastantes para conseguir salvar-te, na esperança que essa recompensa tua seja verdadeira claro, então fala, e juro-te puto, se nos mentistes eu parto-te as mãos aqui e agora!" Carvão, que estava espetada no chão, vibrou de acordo, salpicando sangue e afuguentando os corvos com o seu estrondo metálico. A criança permaneceu imóvel, os seus olhos vermelhos sem pupilas baixados para o chão como um cão mal tratado durante muito tempo, as mãos frágeis erguidas e quase coladas contra o fogo, só os seus pequenos lábios azúis tremiam, único sinal de vida da criança. Mordechai passou mais um pouco de tempo a observar o rapaz de pele azul, vestido num róbe colorido e mal amanhado. Dois pequenos cornos azúis; pois ainda não tinham furado a pele; cresciam-lhe da testa fora e definiam uma curva, subindo quase ao nível do crânio rapado dele. "Olha que isto vai acabar mal puto." Disse o Mordechai. A criança levantou furtivamente o olhar, cruzando os olhos grandes e inquisidores do seu bruto salvador, e gaguejou umas quantas palávras antes de desviar o olhar de novo. "Quê?" Resmungou o homem, "Raios puto fala mais alto!"; "Sou uma miúda!" Repetiu a criança com insistência. Mordechai hesitou um instante, e perguntou "Estávas ali a fazer o quê então han? Eras o quê, uma criada?" A rapariga sacudiu a cabeça, e Mordechai viu os seus olhos a formarem lágrimas. Se não era criada, a presença daquela pobre criança no bordel das sete lanternas só podia significar uma coisa, o homen ficou a olhar para ela durante mais uns segundos, decidindo que as suas razões de lhe ter mentido sobre uma recompensa qualquer eram perfeitamente legítimas. "E agora meu grande idiota" pensou ele. "Acreditas no primeiro sacana que te fala de recompensas e aqui estás tu, com uma miúda toda fudida e desesperada, a ir em direção das cidades de cera morta." "Está bem" suspirou Mordechai, "Diz-me só o teu nome então." O demónio levantou a cara de novo e viu desta vez um guerreiro mais calmo, un pouco mais cansado, a olhar para ela com olhos quase empáticos mas não piedosos, olhos enormes e nervosos cujas pequenas íris douradas brilhavam frente ao fogo. A cara de Mordechai parecia esculpida, esculpida pela experiência, a dor, a raiva, o tempo e as cicatrizes, e vista à luz dramatica da pequena fogueira, parecia a estátua de uma divindade guerreira. Ele possuía um queixo avançado e audacioso, o topo das maçãs do seu rosto sobressaíam bastante e suas grandes orelhas descoladas estavãm ornamentadas de piercings dourados, enquanto os seus cabelos brancos contrastavam com a sua pele cor de rosa avermelhado. "Ayelet" disse finalemente o demónio. O guerreiro acenou com a cabeça, satisfeito. "Mordechai é meu nome, e a viva-espada ao meu lado é carvão como já deves ter percebido." Disse ele simplesmente antes de voltar a arrancar á dentada uma tira de carne seca. Ayelet autorizou-se então devorar dos olhos aquela curiosidade que era Carvão, como se ao conhecer seu nome, tinha recebido permissão de a observar sem restrição. A espada devia fazer pouco menos que un metro e meio de comprimento, se calhar mais considerando que a ponta estava enterrada, tinha uma lamina de dois gumes escura e rectangular, bastante larga e espessa. O olho cyclópico amarelo da criatura que se encontrava no centro do guarda-chuva continuava a fixar o fogo, e pelo olho abaixo, uma racha sinuósa cor de laranja atravessava a lamina, deixando saír o que pareciam ser dentes grosseiros e enormes. "Certeza que não tens fome?" Voltou a perguntar-lhe Mordechai, "Certeza" respondeu Ayelet, "Vinham de me dar de comer antes do vosso massacre." O guerreiro não pôde conter uns risos secos. "Nosso massacre que TU incentivaste miúda, nem sei porque é que acreditei em ti quando falaste de recompensa, devia estar mesmo bêbedo." Disse ele, sempre a mastigar. "Por acaso... até estavas." Replicou o demónio, Mordechai parou de mastigar, ficando de boca aberta a olhar para a rapariga, incredulo, e acabou por largar umas gargalhadas roucas, salpicando cuspo e comida para fora. "És bem esperta para a tua idade miúda" disse ele ao tirar um manto de peles grosso do seu saco de cabedal e atirando-o para ela, quase apagando a pequena chama. "Vá, enrola-te nisso e dorme, amanhã vou ter de decidir o que fazer contigo." Ayelet deitou-se, bastante preocupada, ela nunca tinha visto nada para alem do universo escabroso e cruel do bordel, nunca tinha respirado outro ar a não ser o da atmosféra abafada, carregada com o cheiro a álcool e drogas, suor sangue e esperma, e as poucas coisas que ela sabia do mundo exterior vinham da boca dos clientes, e não eram muito encorajantes, para alem disso, ela estava consciente que ía ser um fardo para o guerreiro. Mas apesar de tudo, sem se aperceber disso, ela esboçou um pequeno sorriso, nunca na sua vida alguem a tinha complimentado, as palavras de Mordechai podiam ser algo selvagems, brutas, mas eram honestas. Ayelet fechou os olhos, exausta, e adormeceu á luz do fogo, satisfeita de saber que a matriarca do bordelo estava agora mesmo a jazer decapitada num mare de ouro e sangue.
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Sangue e cínzas
FantasyNum mundo onde deuses mergulham na decadencia e o excesso, em que a vida é barata e a morte fácil. Um mundo onde uma infinita diversidade de seres rejeitados pelo criador supremo se afundam num mar de fogo e sangue, um único guerreiro, acompagnado p...
