Boca-a-boca

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Todos aqueles que eu temi alguma vez na vida já estão mortos. Nossos inimigos vão morrendo e a gente vai se sentindo tão só.          

Entrei no bar e sentei no banco junto ao balcão. À mulher que veio me atender, em meio a gritaria e risos excêntricos vindos de todos os cantos, apenas pedi uma cerveja:
-Me vê uma Polar.
-O quê?
-Uma Polar!
-Uma Polar?
-Isso! Polar.         

Dizem que repetir uma palavra mais de três vezes faz com que o significado se misture ao significante - como o drinque em que o barman mistura duas bebidas diferentes sacudindo em dois copos - de tal modo que o sentido da palavra fica confuso, débil, ridículo; podemos inclusive nunca mais voltar a entender tal palavra, nos perdendo dentro dos copos que chacolham o bar. Assim, o orador e ouvinte acabam entrando em pane, diarréia mental. A pane é rever os conceitos, questionar-se! Foi esse o segredo que Sócrates descobriou para sacudir o drinque grego.

-Polar?
Repetiu a atendente.
-Polar?
Repetiu o garçom.
-Polar?
Perguntei.

-POLAR? POLAR? POLAR?

Logo o bar inteiro estava tomado de Sócrates. Percebendo o colapso resolvi sair.
Saussure se arriscou ao entrar no mesmo bar no exato momento em que eu saía.

-Boa sorte!
Gritei ao velho.

-Mas o quê?
Respondeu o bigodudo.

-Boa sorte!
Gritei novamente. E antes que eu dissesse pela terceira vez, começando um novo looping, dei as costas pro velho e fui procurar outro bar, no caminho pensei: "dessa vez vou escrever em um papel o que quero beber".

-Já sonhou que matava uma pessoa?
-Não...

Todos aqueles que eu temia se foram. Primeiro foi meu pai: a corda, o pescoço, a cadeira, o fim.
Depois meu chefe: uma carreira, duas carreiras, três, quatro... sangue que escorria do nariz e pingava na mesa do escrtório.
O terceiro foi Deus: Nietzsche, tomado pela sífiles, o apunhalou pelas costas.

Esse bar estava mais calmo, lá dentro um piano e um pianista faziam um show moderado, espetáculo para cães. Com o rabo entre as pernas entrei sem ser notado. Chegando no balcão, latindo pedi uma cerveja:
-Qual cerveja?
Pergunta o garçom.
-Qualquer uma.

Assim evitei que Sócrates estragasse tudo outra vez.

Sentada ao meu lado estava Suelen: preta, olhos castanhos e gordinha, assim como eu.

-Oi...
-Oi.
-Qual é teu nome?
-Márcia.

Não era Suelen!
Sempre que não acerto o nome de uma pessoa eu sou castigado a ficar mudo por três longas horas.

-E o teu?

Sem poder responder sai novamente do bar. Deixando para trás Suelen e Márcia. Não pude sequer deixar um tostão para o piano bêbado e o pianista pachola.

-Hey! Tua cerveja!

Enfia no teu cu! Pensei em dizer mas não pude.

Minha boca é roubada, são 3 horas exatas que fico zanzando por aí sem boca pra falar, comer, chupar ou beijar. Claro que à primeira vez que isso me ocorreu senti um medo terrível, angústia sem fim! Só algum tempo depois foi quando percebi que havia um motivo para a multa. Censurado por errar o nome de uma pessoa que não conheço! Fiquei em nervos! Que diabos de regra é essa? Bom, se isso acontece comigo com certeza acontece com todos. Fui me acostumando com a ideia até que tornei dela um desafio. Foram Maria's que chamavam Ana's, Pedro's trocados por Gustavo's. Até que criei padrões, cataloguei em banco de dados, era minha maior diversão! Desde então eu nunca mais errei um nome. Desde Eustácio até Rondinelly. Era batata! Acertava todos. Até a Márcia aparecer. Agora sou um sem-boca outra vez.

-Já sonhou alguma vez?
-Claro! Que pergunta besta.

Para onde iria uma boca se ela tivesse vida própria?
Quando a minha boca some sempre imagino que ela está dentro de uma calcinha qualquer. Algumas bocas ganham asas e voam bem pertinho das nuvens. Lá, nas mesmas nuvens, descansam bocas já envelhecidas. Outras vão direto no pudim!
Pênis e tetas são outros destinos procurado por bocas fujonas. Têm bocas que se matam, pobres donos acabam morrendo junto. Assim que morreu Carla, outra inimiga que sinto saudade. Também ela mereceu, sempre me chamou por apelidos: gorducho, redondo, Ronaldo, bola e boca. Um nome tão fácil quanto Gabriel. É tão fácil! Bem feito, ela mereceu.

-Já matou alguém?
-O quê?

A sede e fome parecem ficar mais fortes nessas horas. Mas não há o que fazer, só preciso ficar escondido para que ninguém perceba minha falta de boca. Eu sei que isso acontece com vocês também, que acontece com todos! Mas ninguém gosta de falar sobre isso. Ou será que quem fala sobre isso perde definitivamente a boca?

-Já sonhou que matava alguém?

Perguntou-me a mulher que se aproximou primeiro da sargenta onde eu estava sentado.
Essa era a pergunta que eu sempre fazia às pessoas, e ouvi-la da boca de outra pessoa foi surpreendente.

-Já sonhou alguma vez?

Essa mulher, como eu gostaria de conversar com ela! Todas as noites em que saio, eu faço essa pergunta à todas pessoas com quem converso.

-Já matou alguém?

Ela sentada ao meu lado na sargeta, sorrindo, cabelo curto, a cor talvez fosse azul. Olhava mais à boca do que qualquer outra parte do corpo.
Eu queria dizer que sim, já sonhei que matava alguém. Sonhei muitas vezes! E tudo que ela perguntava era tão compatível com o que eu pensava. Mesmo sem boca ficamos ali, juntos. Ela contou suas histórias, fez perguntas, sorriu. Eu fiquei ouvindo, encantado. Passaram-se três horas desde que perdi minha boca. Foi quando subitamente a mulher de cabelo curto me beijou.
O que senti? Nada. Era como se ela beijasse meu braço. Quando terminamos o beijo surge novamente uma boca no lugar onde havia somente pele. Porem, pro meu espanto a mulher perde a boca! Dou um beijo mesmo assim, novamente a sensação de beijar o braço. Demorei para perceber que as histórias que eu ouvi da boca da mulher eram minhas histórias, minhas perguntas, minha boca!
Minha própria boca me beijou!
Foi sem dúvida estranho finalmente ver outra pessoa como eu, mas também trouxe um conforto extremo. Dividiamos a mesma boca por algumas horas. Mas eu ainda, até hoje não sei o nome dela.
Tenho medo de errar e então nunca mais poder falar, ser banido de vez.
Ou pior, tenho medo que errando o nome dela eu perca meu direito de escrever. Tenho muito medo.
Mas ela está me esperando, sei disso! Sei que é Suelen...

-Já sonhou que matava alguém, Gabriel?

Boca-a-bocaHistórias para pegar e não largar. Descubra agora