Ship teve o corpo jogado na cadeira. As algemas apertavam seus pulsos. A sala do delegado Curtis cheirava a naftalina e tabaco barato junto com purificador de ar para afastar o fedor de mofo. Shipley torceu as mãos olhando para a ponta suja dos tênis. Lama e sangue.
Tanto sangue...
Flash do beco úmido e sujo voltavam a sua mente na mesma velocidade do som dos tiros e dos gritos. Cada cena se repetindo em um loop desorganizado que cada vez fazia menos sentido. Ship apertou os olhos tentando controlar a vontade de vomitar ao lembrar do corpo jogado perto da caçamba de lixo, havia um olho faltando, por Deus.
Um estalo.
-Ei rapaz, se vai vomitar pegue a cesta de lixo - avisou o delegado. Era um homem jovem apesar das rugas e dos fios grisalhos disserem o contrário. Ship balançou o rosto e ergueu a cabeça fixando os olhos castanhos escuros no homem do outro lado da mesa abarrotada de papéis, canetas e clips. O computador velho zumbia um pouco.
-Estou bem.
-Não parece bem - devolveu. Ship franziu o cenho e se ajeitou na cadeira.
-Apesar do meu trabalho, delegado, eu não costumo ver mais de um nariz ou um dente quebrado - contra-atacou um pouco ofendido. As pessoas costumavam assumir muitas coisas ao olharem para Ship e ele não se importava na maioria das vezes, mas não era um assassino. Isso ele não aceitaria.
Mas, fosse como fosse, Curtis não pareceu muito impressionado com a resposta. Apenas se recostou na cadeira velha que rangeu sob seu peso e passou os dedos sardentos pela calvície prematura. Pegou o relatório do caso à sua frente fazendo Ship ficar cada vez mais nervoso, pensava no rosto respingado de sangue de Lyle, o lábio tremendo e os olhos arregalados quando ela correu para dentro do Higher.
-Aqui diz que o senhor foi encontrado na cena de um homicídio triplamente qualificado - disse Curtis parecendo agora levemente interessado- três corpos. Todos com o olho esquerdo, pênis e o anelar esquerdo de cada mão amputados. Que claramente caracteriza o envolvimento da Babilônia nessa situação, mas isso o senhor deve saber, não é, senhor...?
-Shipley Carson, delegado, mas todos me chamam de Ship.
-Senhor Carson, o senhor confirma o conhecimento que a pequena chacina que ocorreu fora do seu local e trabalho foi praticada pelos membros da Babilônia?
-Eu não tenho nada a falar sobre a Babilônia, senhor delegado. Eu não tenho nada a ver com eles - Ship soletrou bem as palavras querendo que Curtis e qualquer outro ouvido que a Babilônia tivesse, e ela tinham em todos os lugares, soubesse que ele não estava contra a gangue - eu posso não ter feito uma faculdade, mas não sou idiota. Não sei de nada disso.
Curtis suspirou, já esperando algo do tipo, então apoiou o queixo na mão. Casos como aqueles eram comuns, garotos que estavam no lugar errado na hora errada achando os resultados da briga de gangues pela cidade, Ship não parecia deferente. Mas havia algo incomodando Curtis. Haviam corpos demais no mesmo lugar. A Babilônia apesar de brutal, era refinada, alguns de seus membros eram do mais alto escalão na sociedade de Downvillage.
Três corpos desmembrados em um beco parecia um pouco demais.
-Então do quê o senhor sabe, Sr. Carson?
Curtis encarou o rapaz na sua frente. Verdade seja dita, Curtis e o tal Ship não deviam ter mais de cinco anos de diferença, mas mesmo assim o rapaz na sua frente tinha uma jovialidade assustadiça que Curtis havia perdido com o seu trabalho. Ship era um rapaz encorpado e alto, como todo homem que era contratado para trabalhar em um local como o Higher, um lado do braço era coberto por tatuagens difusas e vestia o típico uniforme dos garotos problemas. Blusas sem mangas, jeans apertados e uma corrente de aço no pescoço.
Quando finalmente levantou os olhos parecia aborrecido.
-Escuta só, eu vou falar o pouco que eu sei, mas você tem que me garantir alguma segurança, ou sei lá - cobrou com os olhos varrendo a sala atrás de alguma coisa- e eu quero fazer uma ligação.
Curtis ergueu uma sobrancelha para a súbita mudança de humores do rapaz.
-O senhor quer ligar para um advogado, senhor Carson?
-Não - disse encarando bem seus olhos. Sim, estava aborrecido- tinha uma garota no beco comigo e eu quero saber a onde ela está.
-Não houve relatos de uma mulher no local.
Ship bufou e se fez mais confortável que pode na cadeira.
-Como se vocês pudessem pegá-la - resmungou abrindo um sorriso amargo- Sawyer corre mais que um preso pra liberdade, delegado, e se esconde feito um também - ele franziu o cenho um pouco - eu só preciso de um telefonema, delegado.
-Ou dar alguma pista para que possamos achar essa garota - sugeriu puxando uma caneta e um lápis. Ship pareceu pensar um pouco e depois deu de ombros.
-O nome dela é Lyle Sawyer, tem uns vinte e tantos anos, faz... jornalismo, eu acho, na Columbus, não sei direito, mas estava sendo lendo ou escrevendo. Ela mora na fronteira do Brooklyn com Downvillage.
-E o quê ela estava fazendo lá?
-Se eu não sei dizer como eu vim parar nessa situação, delegado, como diabos eu posso saber sobre ela? Mas ela deve saber de alguma coisa sobre aquele banho de sangue atrás do Higher, ela tem a mania de meter o nariz onde não deve.
-E você diz isso por quê? - Curtis viu Shipley se empertigar cada vez mais raivo, os olhos escuros brilhando e os tendões do pescoço e braças saltando com a força que fazia para não socar a mesa em frustração e ir preso de uma vez por todas
-Acredite, delegado, eu tenho tantas perguntas pra ela quanto o senhor.
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Shore
RomanceShipley Carson sempre viveu da melhor forma possível com o que tinha e fazia o que dava e o quê podia. Barman de uma das mais infames boates do estado, sempre foi bom em não parecer em noticiários de brigas de gangues e cooperar coma polícia, mas se...
