Ela simplesmente não conseguia acertar o tom de azul. Misturou com preto, misturou com branco e misturou com ambos, mas não conseguia a cor certa dos olhos de Sebastian. E é claro que a gritaria na casa não ajudava. Marina não podia entender como seus irmãos eram capazes de fazer tanto barulho em uma casa tão grande.
O mais velho, Marco, estava gritando com a namorada pelo telefone no quarto ao lado. Os gêmeos, Mathias e Matheus, estavam tocando guitarra e bateria – respectivamente – no fim do corredor. Enquanto o mais novo dos garotos, Marcelo, berrava com os jogadores na televisão no quarto em frente ao de Marina.
O quarto da caçula da família não era pequeno, nenhum dos quartos na mansão era, mas infelizmente também não era à prova de som.
Com sua paciência no limite, a garota pegou a primeira coisa que alcançou – a tela – e lançou-a pelo quarto. Respirando fundo e fechando os olhos, Marina agarrou os cabelos com ambas as mãos sujas de tinta e suspirou em frustração. Mesmo com a gritaria do lado de fora, ela ouviu um abafado clique.
Ao abrir os olhos, percebeu que a tela havia batido na sua estante de livros e que a tinta dos olhos de Sebastian havia escorrido, de forma que parecia que ele estava chorando. Quando se aproximou para pegar a pintura, viu que a estante estava levemente deslocada. A princípio, achou que tivesse sido as empregadas que haviam se esquecido de colocar o móvel no lugar, mas então uma luz de trás do objeto chamou-lhe a atenção. Esperando ter de usar os músculos para arredá-la, Marina se surpreendeu com a facilidade com a qual a estante se moveu. Como uma porta. Assim que pôde, passou para o outro lado e ficou de boca aberta com o que viu.
O cômodo secreto era todo azul, sua cor preferida. Tinha várias estantes cheias de livros e filmes, quadros maravilhosos pendurados nas paredes e um teto de vidro que permitia a entrada da luz do sol. O quarto não tinha janelas, e possuía uma única porta além da que era disfarçada de estante. Felizmente, a ventilação tornava o lugar arejado e agradável. Além disso, o quarto parecia ser dividido em duas partes: a primeira continha um sofá de três lugares, uma mesa de centro e uma grande estante que suportava uma televisão, um aparelho de DVD e um rádio. A segunda parecia um pequeno estúdio de arte: telas, cavaletes e mesas cheias de tintas, pincéis e outros objetos artísticos. Marina se dirigiu até a segunda porta e viu que se tratava de um banheiro. A garota voltou até a porta-estante que dava para o seu quarto e a fechou.
A melhor parte de tudo aquilo era que não se ouvia nada que vinha do lado de fora.
Ela só percebeu como estava tarde quando a luz do céu já não era mais o suficiente para iluminar o quarto e quando sua barriga começou a roncar. Devia ter passado horas ali dentro. Deixando a pintura para secar durante a noite, a menina voltou à porta-estante e empurrou-a, logo a fechando atrás de si.
Depois de um banho demorado, desceu as escadas para jantar com a sua família. Quando os achou, porém, a sala estava em caos: seus irmãos andavam de um lado para o outro, falando depressa em seus respectivos celulares. Sua mãe estava chorando, seu pai falava com um policial e seus amigos estavam todos sentados nos sofás – conversando, fazendo rápidas ligações e escrevendo mensagens.
– Ei, o que está acontecendo? – Perguntou Marina, erguendo a voz para que fosse ouvida sobre a bagunça, com o cenho franzido em confusão.
No mesmo momento, todos pararam o que estavam fazendo e olharam para ela. Após o choque inicial, Mariana foi a primeira a reagir: correndo em direção a filha e chorando enquanto a abraçava.
Sobre o ombro da mulher mais velha, Marina viu ligações sendo terminadas e celulares sendo largados.
– Mãe... Mãe, está tudo bem. Eu estou bem. O que está acontecendo?
– Você desapareceu por horas, minha filha. Ninguém sabia onde você estava. – Respondeu o seu pai.
– Nunca mais ouse fazer isso, mocinha! Quase me mata do coração. – Soluçou sua mãe.
– Onde você estava, Mari?
A garota ignorou a pergunta de todas as formas possíveis e, felizmente, seus pais a ajudaram, querendo trazer calma de volta à mansão e resolver o problema mais tarde. Seus amigos foram embora e sua família jantou normalmente. Quando seus irmãos foram para a sala ver televisão, Marcos e Mariana chamaram a filha e repetiram a pergunta que todos queriam saber a resposta.
FIM
