Era julho quando o irmão de Mia parara de respirar. Ela tinha 17, ele tinha 19.
Era aniversário de casamento dos seus pais e a casa estava cheia. Os corredores cheiravam a vinho e comida requentada, com uma mistura desconcertante de vozes e perfumes. Seus pais davam atenção aos convidados, um a um, como sempre faziam nas comemorações. Seus familiares estavam todos sentados na mesma mesa discutindo a situação política do país e em como não iam lucrar com a crise econômica.
A casa, tão vazia nos dias de semana, se iluminou com telões de fotos familiares e árvores com pisca-pisca nos jardins. Metade do bairro fora convidado e Mia não conhecia nem metade das pessoas. Caçava constantemente o rosto de Ben na multidão elitista e conservadora dos convidados. Andara em todos os cômodos e perguntara para todos os funcionários do buffet, mas ninguém o vira. Ela caminhou até o jardim mais afastado da mansão, e lá jazia ele.
Ben estava sentado na beira da piscina, os pés tocando levemente a água. Os cabelos ruivos estavam molhados, assim como as suas roupas. Mia percebeu que suas mãos sangravam e que partes de sua camiseta estavam rasgadas. O rosto estava escarlate:
- Ben, o que aconteceu? – a garota perguntou, tomando a cabeça do rapaz nas mãos – Estava procurando você!
Ben dirigiu um olhar para a irmã que ela nunca havia visto. Não era tristeza, nem raiva e nem muito menos medo. Era o vazio, o mais puro deles. Sua expressão era indecifrável, como se tivessem colocado uma grande máscara de massa corrida em suas bochechas e boca, impossibilitando-o de falar.
Mia passou os dedos pelos machucados de Ben, delicadamente. O encarou como uma leoa preocupada com seu filhote, mesmo ela sendo a caçula. Tocou-lhe nas mãos, sentindo o sangue quente de seu irmão encostar em sua pele:
- Fale comigo, por favor! – ela replicou, apertando os dedos dele contra os dela.
- Está tudo bem, briga de bar. Não conte pros nossos pais, sim?
Ele se livrou das mãos da garota e limpou o rosto, coçou os olhos e respirou fortemente. Esboçou um sorriso mínimo, quase falso, quase mentiroso e tirou os pés da água. Ben acariciou as bochechas de Mia como um pedido de desculpas e levantou as sobrancelhas:
- Não precisa se preocupar comigo, MiaMia. Não vou mais me meter em confusões, prometo.
- Você diz isso todas as vezes. Se não preciso me preocupar com você, por que você chega sempre chorando quando tem essas brigas?
- Porque eu sou um fraco – ele deu um riso fraco, porém verdadeiro – Preciso me limpar antes que alguém me veja, você me ajuda?
Mia suspirou alto e sorriu para o rapaz franzino, magricela e machucado que era seu irmão e repetiu para si mesma que ele ia ficar bem. Ele era só um adolescente querendo chamar atenção das maneiras que achava mais fácil. Ben era saudável, era extrovertido com a família e umas das melhores pessoas para guardar um segredo, já que ele já tinha muitos para si só. Ben era um bom garoto.
Ele passou os braços nos ombros magros da garota, abraçando-a:
- Essa foi a última vez, Mia. Pode ficar relaxada.
Entraram pelos fundos, subiram as escadas lentamente até chegar no quarto de Ben:
- Você precisa de um banho e novas roupas. Não sei como você consegue fugir tão bem dos nossos pais, eles nem deram a sua falta – Ben tirou a camiseta suja e a jogou no chão, fungando.
- Eles nunca dão – ele tirou os sapatos e olhou ao redor do quarto – Quer saber? Não vou voltar para festa, estou cansado demais. Já vou dormir.
- Tome um banho, pelo menos.
- Não precisa, Mia – ele sorriu – Amanhã de manhã eu tomo. Capaz de eu dormir no próprio chuveiro.
- Deixe-me limpar pelo menos seus machucados, por favor? – o garoto assentiu.
Mia foi até o banheiro e pegou um punhado de algodão, molhando-o na pia. Sentou-se na cama com o irmão bem a sua frente. Pegou em suas mãos calejadas e machucadas, não só pelos novos hematomas, mas por todas as cicatrizes que tinha. Deslizou o algodão em cada corte sangrento com graça e delicadeza:
- Sabe – Ben disse – Você sempre faz isso quando chego em casa machucado. Mamãe nunca fez.
- Não fale assim, ela faz o que pode.
- Você é boa demais para essa família, Mia.
Os olhares de ambos se encontraram e Mia sentia que o irmão estava escondendo alguma coisa. Ele recolheu as mãos para si e coçou o pescoço:
- Preciso mesmo dormir, te vejo de manhã, ok? – ele disse.
- Claro – Mia se levantou e depositou um beijo na testa do irmão – Descanse, certo? Qualquer coisa, estou no meu quarto.
- Boa noite, chaveirinho – Mia gargalhou.
- Você não me chama assim desde os meus oito anos, Ben.
- Velhos hábitos não dão para largar – ele sorriu e se deitou, cobrindo-se – Apegue a luz, por favor.
Mia saiu do quarto sentindo algo pesado em suas costas, como se estivesse esquecendo alguma coisa. Largou a maçaneta da porta, encarando-a e se perguntando se seu irmão estava realmente bem. Cada palavra que saíra de sua boca naquela noite era como se fosse uma despedida, um pedido de desculpas ou um choro por ajuda.
Respirou profundamente enquanto se afastava do quarto do irmão.
Não, algo estava errado.
Foi quando ela ouviu o som do tiro vindo do quarto de Ben.
A música se cessou imediatamente e o som ecoou pelas inúmeras paredes da mansão, enquanto Mia ouvia o corpo de seu irmão cair no chão, num baque fraco.
A porta estava trancada.
Ben a trancara. Ben não respondia. Ben nunca mais respondera.
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|| DOIS MIL E ONZE ||
RomanceDepois de perder seu irmão, Mia tenta entender as falhas de sua família enquanto procura por respostas. Depois de um passado conturbado, Jake tenta se livrar de seus demônios enquanto procura por uma cura. Ambos sem saber que suas histórias estão in...
