Capítulo 1 - A nova moradora.

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- Aquela velha é estranha, nunca fala com ninguém...

Já havia anoitecido e o grupo de quatro homens se reunia no bar para discutir sobre mulheres, política, a última ida à capital para levar os frutos do trabalho e a escassez recente; naquele momento, o assunto da velha veio à tona.

- Ninguém se lembra de ter visto ela chegar aqui na vila - continuou o homem - do dia pra noite ela estava lá, na casa que pertencia ao falecido Seu Antônio, que Deus o tenha!

O outro que compunha a mesa completou em tom irônico:

- O curumim, filho da Dona Ana, disse que viu ela chegar de noite, voando.

Todos riram. Mais um gole de cachaça.

- Perseguição de vocês, é só uma velha indefesa. - um dos menos afetados pelo álcool e único defensor da senhora disse enquanto se recuperavam dos risos espontâneos.

O vilarejo se localizava no meio da floresta amazônica, na beira de um rio, onde moleques se divertiam diariamente e de onde partiam canoas que serpenteavam pelas capilaridades da hidrovia sinuosa, rumo à capital, onde o mercado fervia e de onde os moradores do vilarejo tiravam seu sustento.

A misteriosa senhora estava no local há 4 meses. Tinha a aparência e um jeito soturno. Corcunda, tinha um cabelo branco desgrenhado e a pele tão engelhada que parecia um maracujá vencido. A sua discrição, ao contrário do que se esperava, chamou a atenção de todos os moradores da localidade, e logo surgiram boatos entre a vizinhança. "É um demônio!", "Uma aberração!", "É tudo culpa dela".

O veredito popular não provinha apenas da aparência da velha, no entanto. Desde que ela chegou, coincidentemente, coisas ruins vinham acontecendo. Os peixes estavam escassos, as caças haviam sumido, chovia e relampeava mais que o normal e as árvores davam menos frutos...

- Espera aí! - advertiu um deles - olha quem tá passando ali na rua.

Ele assinalou com a cabeça para uma figura ao longe. Na rua de terra batida, mal iluminada pela espaça luz amarela do poste, era possível ver uma silhueta andando solitária. Olhos semicerrados apontaram para o alvo. Uma corcunda com um vestido e um véu preto enrolado na cabeça. Com certeza era o monstro.

- Pra onde ela vai uma hora dessas? Aposto que vai fazer oferenda pro coisa ruim.

- Ou precisa comprar algo pra comer. Tenham dó da senhora. - Retrucou o advogado de defesa da mulher no bar.

- Já sei, bora perseguir a velha bruxa e ver o que ela vai fazer. Melhor, bora apostar três rodadas de cachaça: se ela não fizer nada demais, eu pago. Caso contrário, o advogado do diabo aqui do grupo paga.

- Feito.

Assim, partiram os quatro no encalço da estranha mulher que andava solitária.

Margeando a rua, eles a seguiram. Desviando de buracos e poças de lama, que davam um ar de luto pós-guerra ao chão. Ao longe, a velha seguia sem hesitar, aparecendo ao sabor da disposição dos postes, distantes uns dos outros. Ora estava sob a luz incandescente de um deles, ora sumia na escuridão que os intercalava.

Diferente da velha, que seguia a passos lentos, porém firmes, apesar da idade, os homens cambaleavam, inebriados pelo álcool.

Após se afastar um pouco da vila, em uma moradia isolada do centro, finalmente, ela parou. Como se estivessem conectados a ela, os quatro também pararam, encostados no mato costeiro. Olhos arregalados em direção à figura ao longe na rua deserta.

A mulher parou em frente a uma casa, bateu na porta e esperou.

- Não disse? Nada.

Um homem abriu a porta.

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⏰ Last updated: Jan 18, 2017 ⏰

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