Mesmo que já fosse um hábito, a sensação de uma agulha perfurando sua pele, ainda trazia o mesmo enjoo à Muxima. Os médicos ao seu redor não lhe causavam tranquilidade. Nada mais que familiaridade. Assim como os instrumentos de trabalho, eles eram frios e metálicos. Não dirigiam uma palavra à garota, a não ser nas ocasiões em que precisavam que ela trocasse de lado.
Não podiam ser de muito longe. A pele negra, assim como a de seu experimento, denunciava a origem africana dos cientistas. Seus jalecos brancos sempre causavam confusão à visão de Muxima, que mal conseguia diferenciá-los das paredes e equipamentos da sala. Os médicos, aliás, não se preocupavam com esse incômodo e conversavam entre si como se a moça não estivesse ali. A rotina também era a mesma para eles, mas, diferente da garota, não era a de objeto de estudo.
Ao menos as coisas estavam para mudar - por um tempo. Em situações usuais, apenas os profundos olhos azuis de Muxima contrastavam com seu rosto enquanto ela era colocada dentro de um tubo branco. Desta vez, no entanto, seus dentes também pediam lugar na caricatura harmoniosa que compunha seu rosto. O motivo de tanto regozijo era sua carta de admissão. Apesar de sempre ter sonhado com a Europa, se contentaria com alguns meses no Brasil. Substituiria toda a neve por areia.
O processo não fora fácil. A menina, pouco ciente da própria situação, tivera que lutar fortemente para convencer os "homens que a vigiavam" a deixá-la partir em viagem. Fora ainda mais difícil do que conseguir a permissão para entrar na universidade.
A inconveniência de ser observada todos os dias, mesmo em lugares públicos, lhe dava a certeza de que não ficaria livre a própria sorte, mas preferia se preocupar com os detalhes bobos: quais as praias visitaria, os amigos que conseguiria na faculdade, possíveis romances e festas loucas para se divertir. Deixar a mãe era, sem dúvida, a parte mais difícil do processo e, enquanto tinha seus órgãos revirados por instrumentos que mal conseguia identificar, via ela triste e sozinha naquela casa grande que viveram por todos esses anos.
Ainda assim, mesmo que isso a incomodasse, só tinha cabeça para a aventura que a esperava.
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Submerso
Science-FictionLisa é uma estudante de Biologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Residente do Leblon, é filha de um empresário de sucesso e nunca teve muitas dificuldades na vida. Com o fim das férias, finalmente ingressaria no programa de iniciação cien...
