Sentada na areia da praia, Lisa continuava se perguntando o porquê de seus pais escolherem um lugar tão quente para passarem as férias, se na Tailândia, sua terra natal, a brisa congelante que soprava chamava por eles de um jeito tão ameno quanto a neve fofinha que vinha de brinde.
Sinceramente, Lisa odiava o verão. Odiava o suor escorrendo pela sua testa e banhando suas roupas, não gostava do maldito calor que a impedia de respirar ou fazer qualquer outra coisa sem se cansar rápido demais, detestava ter que viver na água salgada repleta de algas ou tomando bebidas geladas para se refrescar. E odiava qualquer atividade relacionada ao verão — sendo quaisquer que fossem. Ora! Por que o verão, se o inverno traz consigo casacos felpudos, flocos de neve e pedaços de gelo? Por que seus pais continuavam insistindo nessas férias como se fossem mudar a opinião da garota? Não sabia, talvez eles achassem que Lisa poderia lidar com tudo aquilo facilmente. A única coisa de que ela tinha certeza, era que seus pais adoravam empurrá-la para qualquer coisa favorável a eles; não perdiam a oportunidade de tentar fazer a garota namorar, de tentar fazê-la arrumar um emprego ou de tentar convencê-la a entrar na faculdade.
Mas a verdade era que Lisa estava bem assim. Indo à bares no inverno, bebendo cervejas quentes e aproveitando a própria companhia sem se incomodar com quais opiniões ter ou o que responder quando alguém a fizesse uma pergunta difícil. Andando por aí sem destino, apenas levando o celular, a imaginação e as roupas quentinhas que a abrigavam do frio; as roupas, as comidas e as bebidas eram as únicas coisas quentes que Lisa admitia em sua vida regada de temperaturas negativas e botas nos pés.
Tinha poucos amigos, a maioria virtuais, e não fazia questão de os ter realmente, já que amava navegar sozinha no próprio mar, embora o mar não fosse algo tão incrível na opinião dela. Então a vida era assim; sozinha na boemia que construiu, chegando em casa às duas da madrugada e acordando às sete e meia para sentar na varanda com uma xícara fumegante de chá preto e um livro de capa dura e rabiscada nas mãos. E estava feliz.
Mas agora estava sentada na areia da praia, com o sol escaldante gritando sob sua cabeça loira e irritada. Seu corpo inteiro implorava por um cantinho à sombra para se refrescar e não cogitou, momento algum, em entrar naquele mar; sentia-se tonta com todo aquele calor e já estava enfadada. Juntou as coisas que carregava consigo, olhou para as pessoas e respirou fundo.
Não entendia o motivo do sorriso das pessoas ao estarem naquele ambiente com aquela temperatura; tudo ali lhe dava motivos para desistir (ou gritar). Resolveu ir à procura de alguma sombra. Começou a andar e, à medida que andava, foi ficando cada vez mais tonta. Não sabia se era desidratação ou aquele sol que a escaldava era o mesmo que aquecia o inferno.
— Vai ver o calor não é mesmo para mim — murmurou, chegando perto de um quiosque e sentando-se num banco de frente para uma bancada, aliviada e ofegante. Ficou ali um tempo, respirando e esperando que alguma brisa soprasse em seu rosto e aliviasse um pouco da raiva que estava surgindo agora. Nunca ouviu seus pais, porque fora os ouvir agora?
Pediu um refrigerante, bem gelado, mesmo que não gostasse. Não deixaria sua repulsa por coisas relacionadas ao calor afetarem sua saúde. Continuou ali, sentindo a vontade de chegar em sua casa e vegetar a consumir.
— Você está bem? — Um garota morena perguntou assim que Lisa bufou em frustração. Pôde perceber que a garota não era dali, assim com ela própria, por causa de seus traços e também, porque a garota falou em coreano.
— Acho que sim — Lisa respondeu, também em coreano. A garota sorriu e Lisa pôde ver detalhadamente seus dentes adoráveis. Ela tinha um lindo sorriso, belíssimo, na verdade. E Lisa poderia se perder facilmente nele.
Logo o sorriso sumiu, dando lugar à uma expressão envergonhada. Lisa desviou o olhar rapidamente, sabendo que o motivo do desconforto da outra garota era ela.
— Você não curte muito o sol, não é? — A garota perguntou, quebrando o silêncio, e tomou mais um gole da sua bebida que parecia conter limão.
— É o maior saco! Fico toda suada, fedendo e minha sede é tão grande que parece que eu cheguei do deserto! — esbravejou e a garota riu. Lisa pensou se tinha sido exagerada demais e prontamente se desculpou.
— Porque está se desculpando? Aliás, sou Jennie, muito prazer...
— Lisa. O prazer é meu. — E, com essa, a própria Lisa havia se surpreendido. Para ela, nunca era um prazer conhecer outras pessoas, já que isso significava ter que começar amizades do zero, era um saco.
— Você quer da uma volta, Lisa? — Jennie perguntou, sugando o restante do conteúdo em seu copo rapidamente.
— Essa volta inclui sol? — perguntou divertida, já sabendo que conquistaria mais uma risada da morena. E acertou.
— Só se você quiser. — Ela respondeu fazendo careta e Lisa riu, pela primeira vez no dia.
[...]
Jennie era incrível. Vivia uma vida cheia de objetivos e exalava conhecimento. A menina era uma fonte completa de informações e Lisa ouvia suas divagações com toda a atenção do mundo e com os olhos arregalados. Estava encanta com a garota de cabelos longos e pele morena; embora o encanto por qual Lisa havia se apaixonado fosse o sorriso dela.
Lisa não se lembrava ao certo quais foram os lugares que Jennie a levou, se eram pontos turísticos ou não, quais as comidas que comeram ou a maioria das coisas que falaram. Só se lembra de olhar por horas e horas os lábios fininhos de Jennie mexerem-se enquando ela falava ou sorria.
— Você não está prestando atenção, Lisa. — A garota disse, em seguida levou sua mão até o queixo de Lisa e o ergueu, fazendo-a olhar diretamente para os seus olhos. — Eu estava falando sobre a biodiversidade do Brasil, que é onde você está agora, mas você não me ouviu. — Ela disse com a voz serena, os olhos penetrantes a fitando intensamente e um sorriso ladino. Lisa pôde sentir o hálito com cheiro de hortelã bater em seu rosto.
— Eu não sei se a biodiversidade seria algo interessante. — Lisa disse virando-se e indo em direção à praia, pela primeira, por vontade própria.
— Onde está indo? — A morena rapidamente a seguiu, acompanhando seu ritmo.
— Para o mar. Ele parece bom agora. — Lisa fitou o horizonte e sorriu. Jennie ficou olhando para a garota.
Jennie era uma garota estranha, na opinião dela mesma. Ela era uma universitária que fazia intercâmbio no Brasil. Fazia gastronomia e o Brasil pareceu-lhe um ótimo lugar para isso, já que o país possuía uma culinária única.
— Você é estranha, Lisa. — Jennie disse, chamando a outra de estranha no lugar de si mesma. Olhou também para o horizonte. — Você não gosta do verão, sendo que é a estação mais divertida que eu conheço, você não gosta de cerveja gelada, sendo que é ótimo quando aquilo desce frio pela sua garganta, e não gosta de praia, sendo que é uma das coisas mais lindas do mundo. Você é estranha.
— Você não fica atrás. — Lisa a olhou divertida. — Pelo o que eu percebi, você não gosta de animais, mesmo que eles sejam aquelas coisinhas fofas, não gosta de pizza, sendo que é a melhor comida do mundo, não gosta de refrigerante, sendo que eu amo aquilo, embora eu só goste quente.
— Mas eu gosto de você. — Jennie sorriu abertamente, virando-se totalmente para o lado de Lisa. E Lisa a olhou, bem dentro dos olhos, e jurou que também viu a alma da morena. Viu, também, que os propósitos que sempre buscara estavam bem em sua frente.
(1333 palavras)
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Summer
FanfictionFoi quando conheceu Jennie que Lisa descobriu que o verão não era tão ruim assim. JENLISA + ONESHOT
