A cada buraco em que o carro de tia Amélia passava eu lembrava de cada rodopiada que o carro de meu pai dava na estrada. Os gritos ainda ecoavam em minha cabeça. As pessoas se aproximando para ver como estavam. E eu parada no meio da estrada, sentindo como se fosse mais um daqueles sonhos em que você não tem forças para mover nenhuma parte do seu corpo. As lembranças faziam meu peito doer.
Tentei afastar as lembranças me ajeitando no banco do carona do carro. Senti os olhos de Tia Amélia sobre mim, como todos aqueles outros olhares de pena que eu evitava.
- Você está bem, Becca ? - Perguntou ela, mesmo sabendo que a resposta seria não.
-Psicologicamente afetada, mas fisicamente bem.- Respondi.
-Sabe... Momentos assim são difíceis e gostaria que você conversasse comigo. Eu posso lhe ajudar, Rebecca.
Meu coração acelerou. Eu não queria conversar. Eu queria sumir, fazer com que as pessoas esquecessem que eu existo pelos próximos 50 anos.
-Conversar ? Meu Deus! Tia, meus pais e dois irmãos acabaram de morrer! Eu lembro deles a cada minutos! Penso que eu poderia ter impedido! Minha vida virou de cabeça pra baixo, e a última coisa que eu quero é conversar! Você não entende - Enquanto falo as lembranças acabam invadido minha cabeça de novo. Minhas lagrimas começam a cair e me atrapalham na hora de falar.
Eu me encolho como se estivesse com dor na barriga e começo a soluçar. Escuto tia Amélia chorando.
Tia Amélia era irmã mais nova de minha mãe, devia ter uns 28 anos. Elas eram bem próximas, apesar da imensa distância. Quando minha mãe se casou com meu pai, eles tiveram que se mudar para Nova Iorque. Tia Amélia e meus avós ficaram na cidadezinha pequena em que minha mãe e meu pai cresceram. Para onde eu estava indo morar agora. O fim de mundo chamado Gallup.
O carro de tia Amélia parou em frente a uma casa grande e bonita. Ela suspirou, e com os olhos vermelhos, abriu a boca para falar, mas logo a fechou. Ela estufou o peito e começou:
-Rebecca, nós vamos passar um longo tempo juntas. Você está no último ano do Ensino Médio, e logo você vai para a faculdade. Hã... Eu quero que ... Eu preciso que nós convivamos bem. É um momento difícil para nós duas, e precisamos,por mais que seja difícil, seguir nossas vidas.
Senti sua voz sair apertada, triste. Fui rude com ela. Ela também sofre com nossa perda.
-Me desculpe por ter falado aquilo. Você entende. Eu não devia ter dito aquilo. Desculpe.
-Está tudo bem. Vamos entrar, tenho que fazer o jantar.
Quando entrei na casa senti como se o tempo tivesse voltado. Não era a primeira vez que eu estava em Gallup. Como minha tia era o único parente próximo da minha mãe, nós passávamos alguns dias de nossas férias lá. Atravessei o chão de madeira da casa, até chegar no bosque que tinha atrás da casa. Lembrei de quando eu e meus irmãozinhos brincávamos de "Esconde-Esconde" entre as árvores. Aquelas pestinhas faziam tanta falta.
Meus pais tiveram quatro filhos. O mais velho, Joshua, tem 20 anos, e mora em Iowa, com a namorada. Ele disse que chegaria em Gallup em algumas horas. Nove anos depois que Joshua nasceu, eu vim ao infeliz mundo. E dez anos depois que eu nasci, veio ao mundo os gêmeos,Noah e Charlotte. Assim formamos a linda e perfeita família.
Claro, antes de meus pais, Rosalyn e Leon, morrerem, juntos com os gêmeos.
-Você é parecida com a Rose. Sempre no mundo da lua, desde pequena.- Falou minha tia, que surgiu atrás de mim.
-É.
-Joshua vai chegar amanhã, antes do velório.
-Hmm.
-Está com fome ?
-Um pouco.
-Então venha. Eu fiz bolo de carne.
Entrei e comi um pouco. A comida estava ótima, mas ai lembre que os gêmeos amavam o bolo de carne da tia Amélia. A titia Amy, como eles a chamavam. Perdi toda a fome. Depois de um longo tempo brincando com a comida, eu disse:
-Hã... Bom, acho que vou dormir. Amanhã será um longo dia. Cheio de "meus pêsames" falsos.- Dei um sorrisinho de deboche. Tia Amy também sorriu. Era a primeira vez que eu sorria a dois dias, desde que tudo aconteceu.
-Okay, vá. Amanhã você quer que eu te acorde ?
-Não, obrigada. Boa Noite.
-Boa noite.
Como já estava virando costume, eu chorei a noite toda. No meio da noite tia Amy foi a meu quarto, com os olhos cheios de lágrimas. Ela não disse nada, nem eu. Simplesmente nos abraçamos e choramos juntas.
Quando acordei ela já não estava mais em meu quarto. Olhei para a frente e vi pendurado em um cabide um vestido de renda preto. Ele era bonito até. Senti um cheiro de panquecas com mel e café. Lavei meu rosto e desci as escadas. Cheguei na cozinha e vi tia Amy fazendo o café. Me sentei na bancada e ela me entregou um copo de café e um prato com panquecas com mel por cima.
-Está bem ?- Perguntou ela.
-Na medida do possível, sim.- Respondi.
A campainha da porta tocou, Joshua e Sophia, sua namorada, entraram.
-Becca... Desculpa não ter chegado mais cedo !- Disse joshua já caminhando na minha direção.
-Está tudo bem.- Disse o abraçando.- Está ... Tudo complicado.
Era o dia do velório, ultima vez que eu veria meus pais e meus irmãos, mas eu não queria vê-los. Tudo passava em minha cabeça um milhão de vezes. Todas as piruetas que o carro deu na pista, antes de parar e prender fogo. O médico-legista disse que minha mãe e meu pai morreram pelo impacto do carro, mas que os gêmeos morreram na explosão. Eu queria saber o que meus pais pensaram antes de morrerem. Queria saber se eles haviam me perdoado pelas duras palavras.
Depois de terminarmos de tomar café, preparamos o velório, que iria ser na casa de minha tia, e esperamos os corpos chegarem. Quando o carro da funerária chegou, todos ficaram mais tristes do que o normal. Aqueles dois caixões pequenos, que se manteriam fechados para sempre, com dois corpinhos pequenos dentro. Os de meus pais ficariam abertos por 1h, para que todos se despedissem.
Eu fiquei o funeral todo o mais longe dos corpos possível. Não queria a ultima imagem que eu tivesse deles em um caixão com algodões nas narinas. Finamente tudo acabou. Enterramos os corpos um ao lados do outro. Depois que todos foram embora, eu me sentei diante dos túmulos, relendo várias vezes as frases: "Pai, na vida tudo passa, tudo acontece, mas alguém igual a você a gente jamais esquece", "Mãe, aquela que amamos não se ausenta, se traduz em eternidade e saudade" e no dos gêmeos "Seus sorrisos todas as manhãs farão falta".
Tudo havia desmoronado, minha família tinha sido destruída e nada seria mais como antes. Estava tudo acabado, e uma nova etapa na minha vida estava surgindo. Nada seria como o planejado.
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A vida de Becca.
RomanceRebecca Dellaira é uma garota normal passando por crises em sua vida amorosa e com dificuldades em escolher que profissão seguir, mas depois de um acidente, sua vida acaba se tornando um inferno, e sua única saída é se mudar para casa da tia Amélia.
