- Parem, por favor, parem...
A vida pode ser muito mais do que ver o simples boneco que retiraram da minha mão sendo despedaçado com o argumento de que minha mente era inocente demais.
Tudo começou quando eu tinha 10 anos. Meus pais e eu morávamos em uma cidade pequena, pacata, na qual não apresentava exorbitantes índices de violência, porém, não adiantava ter índices de violência baixos e eu sofrer com a violência dos meus pais. Infelizmente eu não entendia o que estava acontecendo, eu só conseguia enxergar felicidade em meus pais, mas será que realmente existiu felicidade?
Bom, falarei um pouco sobre meu pai, ele sempre foi um homem de personalidade forte, ele era meu super-heroi, o homem que me servia como exemplo, ou pelo menos deveria servir. Seu tempo era dedicado ao trabalho e ao seu próprio mundo, ou seja, não interagia muito comigo, embora que na época de infância eu não conseguia notar. Ele com certeza é um dos mais relevantes em minha história, alguém que merece muita minha atenção e dedicação enquanto retrato. O que consigo me lembrar do início da minha infância sobre meu pai só me faz sofrer imensamente hoje, não quero dizer que aconteciam coisas ruins, mas saber o que ele já foi um dia e lembrar no que ele se transformou me traz uma dor profunda. Meu pai tinha 39 anos, homem trabalhador, um pouco rígido demais, mas aquilo me motivava a ser bom para ganhar sempre sua aprovação.
No dia do meu aniversário de 10 anos ele disse algo que nunca sairá da minha memória:
- Pai, algum dia eu serei como o senhor? – falei com um tom de voz vibrante.
- Olhe para mim, quero que saiba que você nunca será como eu, ouviu? Nunca. Você tem sonhos, tem planos, tem metas... eu tinha tudo isso, por sua causa, eu abandonei todo o meu objetivo de vida para criar você. – falou ele, com um tom de voz meio agressivo e rude.
Não se espante, com o passar do tempo, os elogios tornaram-se cada vez mais raros. Não serei hipócrita em dizer que uma palavra de aprovação não me fazia falta, então eu sempre me dedicava ao máximo para obter os melhores resultados para quem sabe assim despertar meu pai para notar o filho que ele tinha. Tudo em vão... Nada que eu fizesse era bom o suficiente.
- Você se orgulha disso? Por qual motivo? Por conseguir fazer o que todos fazem? Não sente vergonha em ser igual a todos os outros? Sabe, suas ações e seus jeitos são iguais as de qualquer garoto, por isso não teria diferença nenhuma se qualquer outro fosse meu filho e não você. – dizia ele todas as vezes que eu concluía algo.
Bom, aquilo realmente não importava para mim, me contentava em tentar ser o melhor para meu pai.
Certa vez, meu pai passou alguns dias fora de casa (nunca descobri o motivo disso, mas creio que foi consequência de uma briga feia). Pedi uma explicação do ocorrido para minha mãe durante todos os dias fora, mas não obtive sucesso. Aquela situação me entristeceu bastante, a situação começou a apertar, eu via algo através de minha mãe, como se aquilo não fosse algo recente, aparentava que aquela situação já havia se repetido diversas e diversas vezes. Eu não culpava minha mãe por não reparar que eu estava mudando, minha retração era furtiva o bastante para não ser perceptível nem mesmo para ela. Creio que eu devo pontuar minhas principais mudanças.
- Retração
- Desconcentração
- Hesitação
- Descontrole emocional ocasional
Um tempo depois meu pai voltou para casa. Sabe, eu me enchi de felicidade por poder ver meu pai novamente, então não pude conter o choro, e mesmo chorando, corri desesperadamente para os braços dele. Mal eu sabia que deveria ter evitado aquele tipo de situação.
- O que você pensa que está fazendo? Você chora e ainda se intitula homem? Eu só passei uns dias fora, nada demais. Realmente, se eu soubesse que ia encontrar meu filho, aquele que confiei para seguir meus passos dessa maneira, teria ficado mais tempo fora. – falou meu pai com um pouco de escuridão em seus olhos.
Aquelas palavras me causaram dano como uma adaga envenenada perfurando meu coração e espalhando seu veneno lentamente, a cada segundo aumentando a dor, tornando o veneno mais presente em meu corpo...
A partir daquele dia, parecia que meus dias tinham aumentado em algumas horas, as brincadeiras com meus colegas pareciam que haviam se tornado mais cansativas, no geral, eu não estava tão disposto quanto era antes. Independente dos ocorridos, algo ainda me fazia acreditar que meu pai iria mudar, que aquilo era apenas uma fase e que logo tudo voltaria ao normal. Certa noite me pego pensando em como tudo era, na felicidade que poderia existir em minha família, no amor que meus pais deveriam me dar. Pensando nisso durante mais algumas noites e reparando que meu tempo em casa havia aumentado, resolvi relatar meus sonhos em um caderno auxiliar que estava no meu quarto (no qual acabando virando uma espécie de diário pouco tempo depois).
