O Melhor Presente - Sandra Tavares

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Lembro que ainda era novembro e um dia antes do feriado de ação de graças, nós estávamos montando a nossa árvore de Natal. Passaram tão rápidos aqueles últimos dias que parecia que tinha sido ontem que estávamos tirando a decoração de Halloween.

Nesse dia, todos os anos, lembro que papai Jack fazia questão de que fossemos todos juntos para escolher e cortar a nossa própria árvore. Era uma tradição.

Eu, mamãe Adeline, minha irmã do meio Amy, e minha irmã mais velha Katy, ficávamos eufóricas. Mas como toda caçula, eu sempre gostava de ser o centro das atenções e o melhor de tudo é que eu nem precisava me esforçar para isso.

Vovó Belinda tricotava suéteres como motivos natalinos para cada uma de nós entre as três irmãs, mas o meu parecia ser sempre o mais bonito! Eu ainda tinha apenas sete anos e era a princesinha da casa. As minhas irmãs não tinham ciúmes, elas me amavam muito.

Também era tradição as crianças da minha idade escreverem cartas pedindo um presente, ou vários, para o Santa Claus (Papai Noel), e na noite de natal colocar um copo de leite e um prato de biscoito em agradecimento. O que minha mãe não imaginava, é que já faziam alguns anos que eu desconfiava daquele cabelo branco, daquela barba longa, da roupa vermelha e do par de botas pretas. Será que ele era de fato, verdadeiro? Será que toda aquela magia era real?

Só havia um jeito de saber. Então eu tive uma ideia. No Natal, eu escrevi uma carta pedindo um presente que só o Santa Claus de verdade poderia me dar. Mas o que eu podia pedir para dar trabalho ao bom velhinho?

Depois de tanto pensar, olhando minha irmã Katy aos beijos com o namorado, eu pensei: "Queria ser grande como a Katy para poder namorar também." É muito chato ser criança! Você não pode fazer nada! A vovó disse que já estava quase uma mocinha, mas minha mãe disse que eu ainda era o bebê dela. Foi aí que eu tive a ideia de escrever a carta pedindo ao Santa para que eu deixasse de ser criança! Como em um passe de mágica, eu cresceria logo, como uma planta que brota do dia para a noite sem que se possa perceber, e então eu poderia então fazer todas as coisas legais que os adultos fazem! E teria a certeza que ele existe mesmo!

Eu fiz minha mãe prometer que não leria a minha carta. Eu era muito aplicada na escola, e já sabia escrever muito bem sozinha. Ela achou engraçado. Suspeitei de ela levar os braços para atrás das costas para prometer.

Na noite da véspera de natal eu estava muito ansiosa, talvez apreensiva, eu não sabia direito como eram essas sensações, mas minha mãe falava muito disso. Todos estavam na sala, apesar de o natal ser comemorado de fato no dia vinte e cinco, eu pendurei minha meia na lareira, ao lado da meia de Amy, que estava ao lado da de Katy, exatamente na ordem de nascimentos.

Impaciente, de tempos em tempos, eu pulava do colo do papai e corria até o meu quarto para me olhar no espelho, na expectativa de notar algum centímetro de diferença na minha altura, ou alguma imperfeição nas minhas roupas, que provavelmente seriam pequenas, depois que recebesse o meu presente de natal.

Meus olhos estavam cansados, mas eu queria esperar por ele acordada. Eu lutei muito, mas não aguentava mais o peso das pálpebras dos meus olhos sobre as pupilas. Não demorou muito para que eu me rendesse ao sono no colo do papai, e me desse por vencida. Como todos os dias, ele me colocou para dormir, e eu pensando que seria a última vez, já que eu seria grande demais para isso no dia seguinte, pedi que ele me contasse uma história.

A história que papai contou, falava sobre amor, que este era o melhor e maior presente que o mundo precisava receber. Mas eu acabei dormindo antes de saber o final da história. Eu imagino que ele me deu um beijo na testa, desligou meu abajur e caminhou até porta como se estivesse pisando em ovos, como sempre fazia, deixando-a entreaberta para a claridade da luz que vinha da sala, não deixar o breu invadir meu quarto totalmente.

O Melhor PresenteWhere stories live. Discover now