Era só carne no asfalto.
Ao lado do corpo arruinado, roda entortada com raios que lembravam aquelas árvores de plástico luminosas que vendem em lojas chinesas, essas que brilham em cores diferentes, parecem corais de silicone. Os raios da roda arrebitados, olhando para um céu avermelhado. Ia chover. O quadro da bicicleta estava um pouco mais longe, uns quatro metros, cinco talvez, do corpo. Também havia sido entortado com o choque: dava uma curva sobre si mesmo, buscando, quem sabe, uma saída para o assombro de descobrir-se, num instante, sucata, alumínio ensanguentado. A outra roda não se viu. Alguém levou, ouvi um menino dizer, assim, sem jeito, porque agora nem precisa mais, tem mais utilidade para quem segue vivo. Do capacete, pouca coisa: havia isopor flutuando com o vento. Também isopor que não conseguiu voar porque estava preso na poça de sangue, isopor misturado com massa cinzenta, já não dava para ver aquelas bolinhas o que eram, na verdade. Mas isopor tem isso de ser sem dono, de sair pelo mundo, redemoinho essa vida.
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Ghost Bike
General FictionBicicletas brancas amarradas em locais públicos são a lembrança de um acidente, de uma perda. O que fazer quando não se pode recuperar o que passou, quando não se pode corrigir um erro, quando não se pode mais voltar?
