Prólogo

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França, 18 de Outubro de 1560

Passávamos por cobranças nada condescendentes e Francisco provavelmente começava a ficar preocupado com a impossibilidade de iniciar sua família comigo. Não poderia me abater, esperando o tempo decidir, então convoquei minha cúmplice para me acompanhar nessa missão e parti. Às vezes só precisamos ter coragem para que nossos desejos se realizem.

Tempos depois soube que minhas preces foram atendidas. Não necessariamente destinadas aos indivíduos certos, creio eu. Entretanto, o preço que aceitava pagar seria capaz de levar a minha alma para o inferno e não haveria nada que pudesse fazer em relação a isso.

Mesmo feliz pela notícia que confidenciei à Francisco sobre sua chegada, sabia que algo estava desacertado. Tinha de me submeter a triste realidade de que eu fizera a coisa errada, porém, afastava essa ideia sempre que me via dessa forma. Era insanidade sobrecarregar este momento com um sentimento tão ínfimo. Você estava fazendo-se sentir. Era nossa alegria diária em um ambiente tão hostil. Já era tão amado mesmo sem nos conhecermos.

Talvez devesse desfazer meu acordo e fugir, mas toda a Escócia contava com a aliança feita com a França e não poderia simplesmente me livrar de minhas responsabilidades enquanto Rainha, meu pequeno ou pequena.

Descobri da maneira mais cruel que o destino brinca conosco todas as vezes que queremos modificá-lo. Eu espero realmente que isto dê certo, talvez essa seja a única forma de salvá-lo.

Desejaria nunca ter feito tal acordo, isso é totalmente diferente da pessoa que sou. Mas queria muito você, também queria que nossos dias fossem doces e felizes, juntos, apenas juntos. Colocar você aos cuidados de outros despedaçava-me por dentro. Você jamais verá meu rosto e tocará minhas mãos, entretanto peço que me perdoe. Ao menos, sei que estará seguro e viverá sua vida.

Com todo o amor de uma mãe. Com todo o meu amor.

Já é possível escutar os cavalos, preciso que a minha missão seja finalizada antes que nos alcance

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Já é possível escutar os cavalos, preciso que a minha missão seja finalizada antes que nos alcance. Nunca senti dor parecida, mas se não fizer isto, todo o futuro pode ser mudado, e o mundo da forma que o conhecemos pode se afundar em guerras desnecessárias.

Todas já estavam preparadas. A Volva e a fada Fylgia me aguardavam. Por alguns instantes tive vontade de voltar e continuar com a gravidez. Bem, a fada parecia uma pessoa comum para mim agora. De qualquer forma não poderia lidar com espantos descomunais.

— Por favor, o mande para um lugar seguro. Prometa-me que terá um futuro tranquilo?

— Não posso prometer nada minha Rainha Maria, mas talvez ela tenha grandes missões.

A forma como a Volva pronunciou o "ela" me faz tirar um peso enorme sobre mim. Saber que era uma menina fez florescer um sentimento estranho, alegria misturada com esperança. Estaria então tomando a melhor decisão. Ela ficará segura, creio eu.

— Só a proteja. Faça seu papel de divindade e estaremos lhe devendo por toda uma vida.

Tais palavras saíram cortando minha garganta. Apressadamente e sem hesitar, entreguei as duas cartas para Fylgia que faria minha criança crescer em segurança. Apesar disso meus pensamentos me consumiam, como poderia confiar em uma pessoa que não tive tanto contato. A Volva não poderia errar, não dessa vez, não comigo.

Em uma das cartas relatava tudo o que estava acontecendo e porquê as coisas teriam que terminar dessa forma. Expliquei que esta teria de ser destruída assim que fosse lida. A outra, era para o bebê quando fosse o tempo certo. Minha voz ficara embargada ao dar esta instrução.

O feitiço é finalizado e sinto como se um pedaço meu e de Francisco fosse separado de nós para sempre. E naquele momento sei que nunca a verei, nem ao menos de longe, sei também que há algo muito grande para ela, independente de onde esteja minha menina.

— Uma vida pode não ser suficiente. Vida longa à Rainha.

— Faça seu trabalho e pare de enigmas. PROTEJA-A! — Reforço meu pedido com um tom de chateação.

Trato feito e retorno com meu cavalo. A grande árvore se desfaz diante de mim como minhas chances de continuar com minha filha. Meus olhos encheram-se de lágrimas ao olhar para trás e notar o vazio adentrando meu peito. Estava feito e não poderia ser desfeito. Agora terei que enfrentar as consequências.

Acordo e DescendênciaHistórias para pegar e não largar. Descubra agora