Conselho Tutelar Capítulo 1

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Dois mil e nove, era o meu primeiro ano como Conselheira Tutelar. Havia adiado o meu trabalho  como idealizadora da ONG Movimento Escola da Vida para avançar na luta por garantia de direitos das crianças e adolescentes da cidade de Porto Alegre. A ONG já desenvolvia projetos na comunidade desde mil novecentos e noventa e nove e, dedicar-me  a causa da infância e adolescência não era novidade para mim.

Propus a uma voluntária da ONG que assumisse a presidência da instituição provisoriamente enquanto eu cumpria o mandato de Conselheira Tutelar.

Ao assumir o desafio de ser Conselheira Tutelar, sabia que não poderia ter atividades paralelas, a dedicação era exclusiva, o que me impedia de atuar na ONG.

Nesse primeiro ano o maior desafio que os conselheiros enfrentavam era o advento do crack,onde o número de bebês gerados por mulheres dependentes química era imensurável em todo o Pais.

Não havia uma rede de proteção estabelecida que desse conta de tantos casos de bebês retirados pelo judiciário de suas genitoras ainda na maternidade.

Ao conselheiro tutelar, após esgotar todas as possibilidades da família extensa desses bebês, não havia outra alternativa que não fosse  o acolhimento institucional decretado pelo juizado da infância e juventude.

E sobre o decreto de acolhimento institucional não havia vaga suficiente na rede de abrigagem para acolher de imediato esse bebê,ficando por vezes o bebê na sala do conselho tutelar por horas até que surgisse uma vaga. Quem cuidaria desse bebê, sabido que não é atribuição do  conselho tutelar? Quem daria conta da proteção básica enquanto o conselheiro atendia outros casos? Então se requisitava vaga em lugares onde as vagas já estavam esgotadas há tempo.

Ao completar um ano como conselheira e, por não ver avanços concretos nas políticas públicas decidi abdicar do meu cargo de conselheira e retomar a direção da ONG Escola da Vida para criar o programa de acolhimento institucional para dar esse suporte a rede de proteção.

Após inúmeras tentativas a voluntária que assumira a direção, de uma forma egoísta, cruel e arbitrária se adonou da instituição respaldada pelo seu direito de mandato, fechando as portas definitivamente a rede de proteção e me impedindo de retomar o meu projeto pessoal que durante dez anos passei por lutas e resistências para instituir e conveniar a ONG com a ajuda de muitos parceiros voluntários.

Exonerada do meu cargo de conselheira e fora de minha ONG, solteira e mãe de três crianças adotadas, resolvi usar o valor final da minha rescisão de contrato e investir até o último centavo para alugar uma casinha em frente a ONG Escola da Vida e ali implantar a ONG Casa de Acolhida Só Bebê.

Filhos do CrackWhere stories live. Discover now