Fazia um mês que ela estava doente. Dr Lucas, seu médico e meu amigo tentava me explicar em todas as consultas que seu pâncreas não funcionava mais, que ela poderia tentar a cirurgia e a insulina, mas que poderia ficar em estado vegetativo, e eu sabia que ela não queria isso. Queria não ter que escolher e bater em Sartre por dizer que não escolher também seria uma escolha, sabia tudo pelo que ela tinha passado até agora e apesar de ela querer continuar comigo, sei que só prolongaria todo o sofrimento que se tornou cada vez mais constante no último mês, principalmente quando ela forçava o sorriso pra me dizer que estava tudo bem. Não era mais criança, eu teria que tomar a melhor decisão.
-Ela tem quanto tempo?
-Eu sei que pode ser uma decisão difícil, ela tem no máximo 12 horas.
Me viro pra sair de sua sala.
-Gabi, preciso de sua resposta.
-Eu vou sentir muita falta da minha mãe, mas não posso ser egoísta ao ponto de querer ela perto de mim sofrendo. Eu vou me despedir dela.
...
Ao entrar em seu quarto todas as lágrimas que estava segurando vêem a tona junto com uma lembrança.
...
-Filha acorda.
Meio sonolenta abro os olhos.
-Aconteceu alguma coisa mãe?
-Seu avô morreu!
-Meu Deus mãe!
Pulo da cama já colocando a calça jeans quando vejo minha mãe já pronta.
-Ele não tinha feito a cirurgia a dois meses?
-Sim, mas só prolongamos o sofrimento dele. Filha, seu vô sempre disse que quando parasse de trabalhar seria sua morte. Eu falei que a cirurgia não adiantaria.
Realmente, minha mãe na época sempre dizia que tínhamos que deixar ele ir enquanto todas as nossas lembranças dele eram felizes, mas a nova família dele decidiu pelo contrário.
Já no caminho para o velório, minha mãe para em um sinal vermelho e vejo uma solitária lágrima escorrer por sua bochecha, resolvi deixá-lá em seu momento.
-Gabriela.
-Oi mãe.
-Você sabe que eu faria qualquer coisa por você né?
-Sim mãe. Eu por você, você por mim, não é nosso lema?
-Se algum dia, eu depender de você pra decidir a minha vida, pense em mim primeiro, você me conhece meu amor, sabe que eu odeio cirurgias e hospitais, até você eu tive em casa, eu nunca vou te deixar sozinha, mas você vai ter que conviver sem mim alguma hora. Você já é independente, apesar de ter apenas 15 anos...
-16, semana que vem.
-Quero que lembre de nossa conversa quando isso acontecer.
-Dona Lívia, você só tem 36 anos e já tá pensando nisso. Você vai viver até os cem anos sem nem precisar de ir ao médico.
...
E no dia do meu aniversário tive que leva-la ao hospital com a ajuda do Lucas, após a encontrar na cozinha desacordada.
Olho pra cima e vejo minha mãe me encarando.
-Eu ja disse o quanto eu odeio quando você está certa.
-Você realmente achava que a minha fantasia de bruxa da sua festa de 13 anos era alugada.
-Então porque você simplesmente não se cura?
-Por que eu já cumpri a minha missão, criei uma filha maravilhosa.
-Mãe, eu não queria te perder agora.
Corro pro seus braços.
-Eu prometi e vou cumprir, nunca vou te deixar sozinha.
-Mas mãe, a família do vovô me odeia e sem contar que vou ter que parar o curso.
-Eles não te odeiam. Além do mais você nao vai ficar com eles.
-Mais eles são os únicos que conheço como família.
-Filha, seu avô nunca se casou de novo, nem registrou aqueles meninos.
-Mãe então não tenho mais ninguém.
-Quando descobri que estava doente mandei um recado pra uma pessoa, ela vai te ajudar. Agora vou dormir por que estou cansada. Te amo filha.
-Também te amo mãe.
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Coração De Aço <3
Teen FictionGabriela Menezes se vê totalmente perdida após a morte de sua mãe. Apesar de sempre ter sido meio independente, só tem dezesseis anos e não pode continuar na sua casa, cursando o ensino médio e o curso de Design de modas sem um responsável, mas tamb...
