Abrindo os olhos de súbito, despertou... não se espreguiçou, tampouco bocejou. Pulou como se esperasse um ataque inimigo mas tudo o que viu foi a já costumeira figura masculina agachada, ocupada em alguma tarefa, o que pré anunciava o seu sempre modesto desjejum. Passado o susto matinal, relaxou e saboreou por um momento aquela manhã; o ar gelado e denso dos Andes que entrava por suas narinas forçavam seu tórax a movimentar-se com vigor e nisso sentia a dádiva de ter sobrevivido mais um dia. "Sim, você manda bem, pensou" dando tapinhas imaginários em suas próprias costas, felicitando-se ao pensar que quando chegou à região pela primeira vez teve certeza que não aguentaria. A altitude que lhe causara tanto cansaço, dor e mal estar, agora significava apenas que estava em segurança. Suspirou de satisfação. Que dia agradável, este... murmurou.
"Sim eu sei, vai dizer que já não aguenta mais as malditas folhas de coca que lhe dão tontura, mas sabe que precisa delas pra aguentar a mudança de altitude e que nunca devia discutir comigo, afinal eu tenho sempre razão". Nem precisava se voltar pra direção daquela voz afinal já sabia que era Adam tagarelando compulsivamente sobre suas opiniões, ainda que ninguém se importasse com elas. "Verdade Adam você tem sempre razão, a não ser quando eu tenho razão", disse sem pensar e foi se juntar a ele perto da pequena fogueira que desde o dia anterior servira de iluminação, aquecedor e fogão àquela dupla incomum.
Ovos cozidos, tomates fritos e aquela bebida agridoce que agora, depois de semanas, até tinha um gosto aceitável... era tudo o que havia, portanto tanto faz se o sabor era ou não aceitável, mas gostava de pensar que se alimentava daquela forma porque assim desejava e não apenas por falta de opção. Sentia-se melhor assim. Comia rapidamente mesmo não tendo planos para aquele dia (sobreviver, apenas) enquanto provocava o homenzarrão que apenas observava a refeição:
"Ora, de novo você não vai comer? Não sabemos até quando teremos comida e ao invés de aproveitar o que você faz? Greve de fome, olha só! Deixa de bancar o 'Marrata Ganja' e venha comer, homem!".
"Marrahtma Gandhi, você quis dizer, né pedaço de carne? (Ele sabia responder uma provocação). Nem sei porque perco meu tempo tentando te ensinar alguma coisa. E você sabe bem que não vou comer, mas porque vai querer me deixar em paz não é? Coma logo, pois temos muito a fazer e tempo já perdi demais tentando te ensinar história". Quem escutasse aquele dialogo talvez pensasse que havia certa animosidade entre os dois mas ao olharem seus rostos , logo se percebia a amizade e cumplicidade que compartilhavam, aquela centelha marota no brilho do olho, típica de amigos de longa data.
Ficou de pé pensando numa resposta para Adam, mas avistou ao longe a fumaça espessa e negra, sinal de uma explosão e nisso a realidade lhe esbofeteou a cara feito uma dama diante de uma cantada atrevida; a face tornou-se pálida e letárgica. A guerra; só despertou desse torpor de pânico ao sentir a mão do amigo de leve lhe cutucando o braço dizendo: "deixe estar, estamos a salvo e assim ficaremos, mas sabe o que temos de fazer". Lembrando a conversa da noite anterior onde tinham prometido se cuidar, manter-se alheios aos acontecimentos nos condados e sempre o mais distantes e discretos quanto fosse possível, afinal aquela guerra não era deles, definitivamente não lhes dizia respeito.
Viu que Adam se distanciava caminhando e correu para acompanhá-lo mas depois de avistar indícios daquela explosão não tinha vontade de conversar. Seguia-o de perto mas preferiu mergulhar em sua própria mente e mais uma vez, mesmo sem querer começou a pensar nos Intuitivos. Como os admirava, e como queria ser um deles. Pertencer a uma classe de EVOLUÍDOS que prezava a inteligência era tudo o que queria afinal beleza nunca foi seu forte, por outro lado, sempre se destacou por sua mente brilhante (riu de sua própria "modéstia"). Pensou em como teria se sentido o primeiro evoluído dessa classe ao se perceber capaz de assimilar tanta informação, compreendendo processos complexos como que por mágica, que sensação maravilhosa deve ter sido! Um dia visitaria o Condado Polinésio, sabia que era lá onde a maioria dos Intuitivos viviam. Corou pensando que a menos de 24 horas tinha prometido a Adam se manter longe, mas a ideia de passar-se por um deles era tentadora. Apesar disso, sabia o quanto podia ser perigoso, afinal essa era a classe mais odiada: tanto os Aprimorados, quanto os Gigantes viam os Intuitivos como o lado mais forte nessa guerra; além disso, os Naturais tinham jurado vingança pela traição à Aliança que haviam firmado.
Um arrepio lhe percorre a espinha ao ouvir o trotar veloz de um cavalo e extintivamente, corre pra uma touceira e se esconde... procura com os olhos o amigo para salvá-lo, pois sabe que os únicos que cavalgam são os Aprimorados e a estes, teme mais que a qualquer outra classe. Demora pra perceber que recostado em uma pedra Adam ri aquele seu riso histérico que as vezes também pode ser muito irritante. Ele tem nas mãos duas metades de um côco que já estão ocas e logo percebe a brincadeira de mau gosto daquele amigo sem noção.
"Um dia desses sofro um infarto, juro que sofro! Quero ver quem você vai chatear por toda a eternidade quando eu não estiver mais aqui" (sabia que piadas sobre a eternidade sempre afetavam Adam). Continuou: "ainda agora pensava sobre as classes e o barulho destes cocos, fez meu coração saltar aqui na boca... que Gaia me livre de dar de cara com um aprimorado".
"Um Aprimorado aqui na Cordilheira? De onde você tira tanta idéia maluca, hein? Aff!" Adam se diverte mais um momento com a sua brincadeira, antes de prosseguir falando. "Enfim, falando sério, você disse que hoje resolveríamos o que fazer durante nossa estadia nas alturas... anda, me conta no que pensou".
"Quero encontrar um local de boa visibilidade para todos os lados da Cordilheira e lá construirmos uma cabana, desde que haja acesso a água e quem sabe uma pequena área de cultivo... cavamos um poço e talvez faremos um forno; não seria mal comer pão pra variar! Com sorte em duas semanas teremos tudo pronto pra o nosso 'felizes para sempre'?" Ao dizer essas palavras da uma piscadinha pra Adam que entendendo a brincadeira se ajoelha e tomando-lhe a mão diz em tom teatral: "Minha querida Diana, aceita se casar comigo?"
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Humanidade
Science FictionEm um futuro pós-guerra nuclear, o próximo passo da evolução gera uma nova classe de pessoas que transformam o planeta em um ambiente extremamente violento. Enquanto diversas facções lutam pelo controle mundial, uma jovem segue sua própria jornada e...
