Door

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Jane estava sentada, encolhida perto da porta fechada, uma porta que já não se abria a duas semanas. Todos a sua volta eram falsos ou simplesmente não entendiam o abismo escuro e sombrio de sua dor e apenas diziam que tudo ficaria bem. Para Jane já não era palavra de reconforto, eram palavras de pessoas que simplesmente não tinham o que dizer, nem queriam piorar, apenas conforto, tudo que Jane não tinha. Trancafida, eternamente, naquele cubículo por causa de dedos apontados em seus erros e críticas pesadas, fizeram com que Jane parasse de querer agradar a si própria, para agradar os leitores alheios, que não entenderam o real sentido de sua poesia, de sua dor e de seus sentimentos complexos demais. Jane não queria marido, Jane queria ser ela, mas por causa de pequenas palavras, Jane, mesmo se recusando a dizer que se importava, a isolaram em um mundo onde ela passou a ter bloqueios emocionais, suas poesias travavam, simplesmente porque ela não estava mais agradando a si, estava agradando aos outros. Se esforçava, se auto menospreza e se auto condenava, no seu próprio posso de, "eu não consigo", "eu não sirvo mais para nada", "O maior pecado de Deus, foi me criar", " não tenho ninguém ao meu lado para dizer palavras verdadeiras, muito menos saber minha dor.". Repetia pra si mesmo todo dia. O fardo, ela que ela carregava, não lhe cabiam mais nas costas.

Enquanto chorava, uma sombra subia em sua janela. Um menino de nariz comprido, pele pálida e olhos bem azuis, entrou e ela o olhou de cenho franzido.

- Quem é você?- Perguntou Jane em meio a soluços.

- Um amigo. O único que esperou você lidar com sua própria dor. Não queria ser mais uma pessoa falsa que vem só quando está doente ou com segredos bem quentes na ponta da língua. Aquele amigo, que mesmo não parecendo, pensa em você, pensando de te dar bom dia, mas com medo de parecer falsa, ou um simples seguidor. Eu realmente me importo com você, não sei porque raios, mas eu me importo.- Disse o garoto tirando uma maçã do bolso.

- Não quero sua pena, muito menos seus conselhos de auto ajuda.- O garoto riu.

- Auto ajuda? Lamento, mas não virei psicólogo. Sou apenas alguém que entende sua dor. Sou um escitor de quadrinhos e por muito tempo, tive bloqueio criativo. Mas o tipo de bloqueio que te deixa desesperado, sem saber para onde correr, onde procurar inspiração.- Ele respirou fundo.- Fiquei louco, paranóico. Não deixei as coisas fluirem, barrei alegria, queria apenas voltar a ser aquela pessoa criativa a todo momento, sendo que eu estava preso em um loop eterno que não me deixava sair. Eu desenhava e escrevia cinco por dia, cinco por hora, cinco por minuto se duvidar. Mas, um dia, a fonte secou e eu não estava jogando a água certa para que ela enchesse, eu estava me auto condenando, me auto obrigando a pensar, então meus pais, achando-me absurdamente louco, me colocaram em um manicômio.- Jane pediu ele para parar com um sinal ee mão.

- Nunca me viu e está me contando sua vida inteira, por quê?- Ela indagou confusa.

- Só acho que não é capaz de trair alguém que nunca te fez mal. Você é uma pessoa de bom coração, uma pessoa que não machucaria a ninguém. Vejo isso em suas palavras, confio em você.- Jane calou-se.

- Depois disso, eu aprendi a lidar com o tempo. Ele me ensinou a viver, a sorrir. Fui bloqueado por aquilo que me afligia, que fiquei parado em um ciclo vicioso de tortura. Depois, sai do manicômio, fui viver, sempre com meu diário, já que meus amigos, assim como meus pais me acharam louco. Um dia, quando voltava de um bar/ karaokê, e vi três crianças brincando, a beira de um rio, rindo, ouvi uma brincadeira bem estranha, chamada, agora eu sou louco. Eles corriam de um lado para o outro, do suposto louco, quando o louco os pegava, eles gritavam, agora eu sou  louco. E isso, me deu inspiração. Voltei a escrever, demorei meses, sempre quando a inspiração acabava, ia viver, brincar na chuva, essas coisas bem... Infantis. E quando a historia acabou, fui perguntar aos meus verdadeiros amigos, eles acompanharam a história se desenvolver, muitos disseram que estava cativante e que eles poderiam passar horas lendo, que iriam querer mais, outros disseram que, apesar de não curtir o gênero, era bem cativante e me dariam maior apoio, muitos, nos quais eu jugava amigos, disseram que era parar de escrever, tudo era chato e fantasioso além da conta, eles eram o verdadeiro significado de falsidade. Depois, desenhei, passei para os quadrinhos e explodiram.

- Onde quer chegar com esse discurso todo?

- Eu quero dizer, não feche a porta do seu mundo. Abra-a a vida lhe dará inspiração, a vida lhe dará algo precioso.

- O quê?

-Tempo. Para pensar, refletir. Se quiser sumir, suma, mas sempre tenha alguém, nem que seja um diário, para contar tudo que viveu, nem que seja ficar olhando os pássaros ou dormindo com preguiça, isso daria uma grande história, um grande rascunho da sua vida.- Ele ia pular da janela.

- Espera, aonde vai?

- Tenho minha vida para viver, acho melhor fazer o mesmo.- Gritou e caiu no chão de pedra.

Fim...

Isso foi um conto para você, sim, você que está lendo isso.

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