Aba

47 5 0
                                        

O salão tinha uma arquitetura vagamente medieval. O chão parecia alabastro ou mármore. As paredes de pedra eram perfeitamente lisas, com rochas em um tom escuro e uma das paredes simplesmente fora substituída por pilastras ao estilo grego.

Ele comia com lentidão, apesar de eu ter consciência de que ele não precisava se alimentar. Finalmente, ele me olhou. Não me pergunte o porquê, eu não sabia a razão que me levara a concordar em escutá-lo, apesar de ele ser meu pai. Mas agora eu estava ali, prostrado na cadeira de espaldar alto apenas aguardando.

– Vocês já tentaram dar muitos nomes a ele. Eu também o chamava de muitas formas diferentes. Mas minha preferida era Aba. – Ash-Shatan mastigou a carne de frango – Ele era meu "pai" – a entonação na voz deixava claro que pai não era um termo muito preciso. – Ele surgiu espontaneamente no universo, a existência dele era muito complicada de ser compreendida, mesmo para nós. Quando ele emergiu, não existiam outros seres aqui. Eu sei que parece absurdo, mas Aba se sentia solitário. Então, ele criou sua, e digo isso de forma etimologicamente literal, obra prima. Sua primeira obra. – Ele me olhou por exatos dois segundos e suspirou – Vocês. Mas os seres humanos foram criados como seres a parte, incapazes de compreender a grandiosidade de Um-ser-que-é. Ele amava vocês, mas desejava companheiros reais, alguém com quem realmente pudesse interagir.

"Eu fui o primeiro. Ele me nomeou Heilel, mas eu preferia Ben. Fomos todos gerados na ordem em que as castas existem hoje. Serafins vieram primeiro. Emergiram literalmente do fogo que habitava dentro do Aba. "

"Vocês, humanos, apesar de mortais, tinham a capacidade de crescer em número. Nós, entretanto, não éramos capazes do ato de recriar nossa essência, por ela ser única, vinda diretamente do Grandioso. Então Ele nos tornou imortais. Ele esgotou quase que completamente a sua energia para transferir toda sua imortalidade para cada um dos elevados. Foi uma escolha abnegada e apesar de termos considerado, à época, uma medida descabida, as eras seguintes foram gloriosas. Até os Tempos de Rebelião"

Estremeci. Conhecia as histórias dos Tempos de Rebelião.

"Eram poucos os elevados que realmente simpatizavam com os humanos. Vocês eram vis, egoístas, incontrolados, rebeldes, inconsequentes. Eu não era exceção, meus dois irmãos mais próximos, no entanto, eram completos opostos. Miguel era um paladino da humanidade, via em vocês uma beleza que eu só descobri mais tarde. Gabriel, entretanto, simpatizava com minhas ideias. "

– Por isso resolveu nos destruir. – Interrompi sua narrativa com um tom acusatório.

– Aguarde, meu filho. – Torci o nariz com o vocativo usado, mas me calei.

"Um dia, inesperadamente, Gabriel surgiu em meu quarto, com o olhar carregado de sentimentos pesados. Havia medo, culpa, arrependimento e muita tristeza. Ele me contou que havia uma rebelião em curso, a qual ele não entendia completamente, mas que ele havia se envolvido com esses elevados porque um dos objetivos deles era aniquilar... – ele pareceu engolir em seco – os Imundos de Terra."

Imundos de Terra. Nascidos do Barro. Humanos.

Gabriel. Minha mente girou. Meu nome fora dado em homenagem àquele elevado, considerado um mártir. Mas ele era... um traidor? Aquela história não fazia sentido.

– Ele não era um traidor. – Ash-Shatan se apressou em corrigir – Ele... ele só foi um pouco inconsequente. Enfim, prossigamos. Eles precisavam de um bode expiatório, no entanto. E escolheram a mim, foi o que Gabriel disse. Eu não sabia bem o que fazer, mas instruí o meu irmão a apenas aguardar se manter quieto, sem dar sinais de que havia vindo a mim. Eu mandei que ele fosse embora. – Ele parou. O salão estremeceu. Os olhos dele pesaram. Eu senti meu peito se contrair. – Eu consegui sentir quando eles o capturaram. Uma emboscada. Eles nunca confiaram completamente na fidelidade de Gabriel àquela conspiração, principalmente quando envolvia uma traição contra mim. Eu consegui ouvir seu clamor e fui ao seu socorro, mas não era apenas uma emboscada a ele. Gabriel era uma peça. Eles o envolveram sabendo que ele viria a mim. Quando ele veio, eles montaram a cena. Desarmaram-me da Flama, minha espada que agora você porta. – "A única arma capaz de destruir um elevado", recordei-me. – Mataram meu irmão diante de mim e depois me acusaram de tê-lo feito. Eram vários Serafins contra a minha palavra, todos eles mentindo através da Corrupção.

"Miguel..." ele parou "...ele me odiou. Disseram que eu havia convidado Gabriel para iniciar uma rebelião comigo, mas como ele se recusou, eu o matei. É essa a história que você escutou, tenho certeza.". Fez-se silêncio durante alguns segundos. "Eles me acusaram oficialmente diante do Aba, jogando sobre mim toda a responsabilidade sobre as ações deles. Eu havia sido encontrado ao lado do corpo dele, com a arma em mãos" o ser silenciou-se.

– Gabriel é um mártir em Eilom. – Eu comentei, aproveitando o silêncio.

Seu olhar distanciou-se.

"Quando fui inquerido sobre o que havia ocorrido, eles me perguntaram sobre Gabriel. Eu percebi o olhar de desprezo e decepção de Miguel. Eu sabia que se eu dissesse que Gabriel estava envolvido, ele não acreditaria em mim. Ele realmente acreditou que eu havia iniciado uma rebelião. Mas eu não queria gerar nenhuma dúvida sobre a integridade do meu irmão. Ele não fez nada daquilo por mal. Então eu menti. E logo em seguida resolvi confessar."

– Se você não fez, por que confessou?

O olhar dele se tornou rígido.

– Porque não era isso que eles esperavam. Quando eu confessei, Aba compadeceu-se. Ele me ofereceu uma punição menor, mas que chocou a todos. Ele disse que eu estaria perdoado se provasse que era capaz de amar os humanos. Isso permaneceu apenas entre os coros mais elevados de Eilom, apenas entre a primeira tríade e Aba. Ele me enviou à Terra, como um humano. Eu deveria "levar luz a eles". Eu salvaria a eles da iniquidade e, junto, salvaria a mim. Por fim, seria imolado em favor deles. Deveria oferecer-me em sacrifício. Eu concordei. Parecia uma punição irrisória perto de ser banido ou destruído. Uma experiência como humano, um sacrífico final e eu poderia retornar. Eu fiz. Mas ao final da minha vida humana, quando retornei a Eilom, descobri com desespero que Aba havia morrido e os Serafins haviam assumido o comando. Eles foram os responsáveis por me julgar e reafirmaram minha condição de indigno. Eu não fui destruído porque a Flama era a minha espada, e eu só poderia morrer através dela por imolação.

Minha mente palpitava. Eu não compreendia. As peças não faziam sentido.

– Só então eu compreendi, Gabriel. Quando Aba abriu mão de sua imortalidade, ficou explícito que em algum ponto ele deixaria de existir e então o comando de Eilom ficaria vago. Pela lógica, eu era seu primogênito e poderia tomar sua função. Eu era bem quisto em Eilom e teria uma grande legião de apoiadores. Foi disso que se tratou a Conspiração. Impedir que eu ascendesse ao poder.

Então a ficha caiu. Tudo fazia sentido. "Ele não é apenas o Pai da Mentira, ele é também o seu pai. E vai tentar te manipular". Eu ri, um riso sarcástico e irritadiço.

– Você deseja que eu me alie a você na sua tentativa de tomar o poder de Eilom dos Serafins? Espera mesmo que eu vá fazer isso?

Mas Ash-Shatan franziu a testa confuso.

– Óbvio que não. Eu jamais assumiria o poder em Eilom, eu jamais quis esse poder. – Todos os alimentos desapareceram na mesa, desfazendo-se em fumaça. – Eu quero que você me ajude a revelar a verdade. Uma cruza como eles gostam de chamar, o filho de um elevado com um humano, detém imenso poder. Você, Benjamin, detém imenso poder. – Meu coração palpitava, minha mente tentava trabalhar aquelas informações. – Você é a única pessoa capaz de me matar, além de mim mesmo, usando a espada que um dia foi minha e agora é sua. Mas você também é o único capaz de trazer a verdade à tona.

Calei-me. Ele também. Mas algo em mim parecia inesperadamente em completa ebulição, um sentimento poderoso que eu não compreendia, mas parecia querer despertar.

– Você deseja que eu confie cegamente em você? O ser que me trouxe ao mundo me fadando a um destino injusto, que destruiu a vida da minha mãe, que me tornou praticamente o anticristo? Deseja que eu mate aqueles que me acolheram e depois, o que, dê o poder a você?

– Não. Desejo que você revele a verdade.

– E depois?

– Depois eu quero que você me mate.

Minha surpresa deve ter ficado clara.

– Eu não est–

– Eu só quero que todos saibam o que realmente aconteceu. Se quiser, pode me matar agora, pode invocar A Flama e me matar aqui, neste momento. – Ele respirou fundo. – Só me prometa que Miguel saberá que eu nunca o traí. Que todos saberão.

Miguel. O modo reticente como ele falava de Heilel...

Pela primeira vez eu o olhei diretamente nos olhos. Minha respiração pesou. E naquele instante compreendi que minha decisão estava tomada.

VeritasWhere stories live. Discover now