Estarei pronta para morrer? Será que tenho coragem?
Seria bem mais fácil desistir. A verdade é que já estou a morrer aos poucos, aos goles, copo a copo. Mas estes copos não vão de encontro à minha boca, não, estes copos estão a saciar o vício de uma outra pessoa. Pergunto-me se ele mesmo se dá conta que está viciado, se ainda tem conta de quantos copos já esvaziou só naquele dia. A parte mais triste é que este hábito repetiu-se tanto que agora é normal, já nem sei como é o meu pai quando está sóbrio, às vezes acho que nunca o conheci. Mas lembro-me desde pequena observa-lo, sentada em um café qualquer, enquanto ele bebia, a última cerveja nunca era a última, e a cada rodada menos o reconhecia, lembro-me de todos os meus pedidos de ir para casa serem ignorados com um "Mais cinco minutos" que tresandava a álcool, lembro-me dos olhares de pena de quem desse conta da situação, lembro-me de que ele nunca se lembrava de parar. Mas eu amava-o, o pai que pintei na minha cabeça a partir dos relances que às vezes apanhava de quando ele era só o meu pai. Talvez fosse isso que me estivesse a matar, o amor. Amor que me fazia submeter uma sessão de tortura, porque ainda que ele fosse beber até cair, ao menos que eu estivesse lá para o apanhar, era eu e ele contra o mundo. E eu repeti essa frase durante anos como se fosse um mantra. Foi assim que aprendi que o amor magoa, mas eu não tinha mais ninguém, porque não via mais ninguém, e engolia todas as falsas promessas com tanta satisfação quanto ele quando bebia mais uma garrafa de vinho,e enquanto ele ficava de ressaca eu ficava com feridas para toda a vida. Era isso ou nada, e quando se é criança a imaginação ajuda a encobrir os rastros do que não está lá mas devia estar. E as pessoas perguntavam-se "Onde está a mãe desta criança?" , e admito que por vezes também me perguntava isso. Onde estava, então? Não sei, não aqui.
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Short StoryA vida é cheia de surpresas, nem todas boas. A minha, nunca foi um mar de rosas. Entre o passado e o futuro, as lágrimas e os sorrisos, esta é a história de muitos, conhecida por poucos.
