É realmente muito estranho escrever isso. Muito, muito estranho.
Me chamo Pedro, sou estudante de publicidade e perdi minha mãe aos 6 anos de idade, no dia do meu aniversário. Desde então, prefiro não comemorar esta data. Quando chega o dia de soprar as velinhas, eu prefiro retirar um tempo para conversar com minha mãe. Hoje esta data já não é um dia tão triste, mas mesmo assim, não é um dia nada feliz e não vejo motivos para comemorar.
Minha mãe sempre foi uma mulher muito boa. Não tinha nenhuma formação acadêmica, largou os estudos ainda muito nova, mas me ensinou a amar e respeitar todos da mesma maneira. Era uma mulher linda. Casada com meu pai desde os 17 anos, se foi aos 26. A causa de sua morte foi "Infarto Agudo do Miocárdio". Claro, isso é o que os médicos acham. Eu sei que não foi isso. Minha mãe foi assassinada. Ela foi tirada de mim e do meu pai pelo espírito que a atormentava.
Parece loucura, não é? Todos dizem isso. Inclusive meu pai.
A história que você lerá agora foi escrita com base em informações que coletei desde meus 12 anos. Não quero que sintam pena ou tenham compaixão, quero apenas que saibam disso.
Tudo começou em janeiro de 1998, quando minha mãe estava no terceiro mês de gestação. Minha mãe cuidava da casa enquanto meu pai trabalhava fora, como faxineiro em uma empresa que prestava serviços para outros locais, explicarei melhor mais tarde.
Minha mãe se chamava Camila - Mila, para os mais íntimos - e conheceu meu pai, Rafael, quando tinha 14 anos. Eles se conheceram na escola, ambos no último ano do ensino fundamental. Meu pai, sempre muito educado, logo despertou o interesse de minha mãe. Ele sempre conta como foi a primeira vez que se falaram.
- Vo-vo-você te-te-teria um lá-lápis para me-me-me emprestar?
- Cla-cla-claro. - brincou minha mãe.
Desde então, os dois começaram a se falar cada vez mais, e isso resultou numa amizade, que virou um romance, logo veio a paixão e culminou num grande amor. Os dois eram de origem simples, mas isso nada mudou no que ambos sentiam. O tempo passou e aos 17 anos meu pai pediu minha mãe em casamento. Pode parecer absurdo hoje em dia, mas era muito comum nos anos 80.
A relação dos dois sempre foi muito boa. Depois do casamento, ambos largaram a escola e foram trabalhar. Meu pai arrumou um emprego numa empresa de limpeza e minha mãe foi trabalhar em um mini mercado e ali ficou até engravidar. Quando a gravidez chegou, meu pai pediu que ela fosse cuidar da casa e do bebê - no caso, eu. Ela ficou resistente a ideia no início, mas logo aceitou e meu pai continuou trabalhando. Ele ganhava bem no emprego e gostava do que fazia.
Quando minha mãe chegou ao terceiro mês de gravidez, a empresa que meu pai trabalhava foi contratada para fazer a limpeza de uma antiga igreja e meu pai ficou encarregado do serviço. O Padre Lúcio explicou ao meu pai o que seria feito. A igreja foi comprada por um grande empresário e seria reformada, mas antes, precisava de uma limpeza. Nesta limpeza, alguns objetos velhos acabaram sendo descartados pelo Padre Lúcio e toda equipe do local, juntamente ao meu pai. Entre esses objetos, estava um crucifixo de madeira onde faltava o "braço" direito da cruz. Meu pai achou bonito e pediu a permissão do Padre para levá-lo para casa, que logicamente não negou. Meus pais nunca foram religiosos, principalmente minha mãe, mas Jesus fazia parte da fé de meu pai. Meu pai limpou o objeto e levou para casa.
Ao chegar em casa, meu pai concertou e pendurou o crucifixo de madeira perto da cabeceira da cama. A casa era pequena, bem simples. Era o aluguel que eles podiam pagar, mas eram felizes. O pequeno apartamento tinha dois quartos - um deles é o meu hoje em dia -, um banheiro e uma sala/cozinha. Minha mãe adorou o objeto em forma de cruz. Ela sequer tinha uma religião ou crença, mas achava cruzes muito bonitas.
Naquela noite eles foram dormir por volta das 23 horas, como faziam sempre. E foi, como já falei, onde tudo começou. Na madrugada, minha mãe teve horríveis pesadelos. Todos envolviam o espírito de uma mulher velha que falava repetidamente a frase "sanguinem crucis". Ela relatou todos para sua amiga Ana, a qual me contou tudo.
Num dos pesadelos, a velha que tinha olhos fundos e uma aparência cadavérica, estava sentada em uma cadeira de balanço numa estrada deserta. Minha mãe andava - na verdade flutuava - pelo local quando se deparou com a entidade.
- Sanguinem Crucis. Sanguinem Crucis. Sanguinem Crucis. - repetia e entidade
- O que isso significa? Onde eu estou? O que está acontecendo? - tentava argumentar minha mãe
- SANGUINEM CRUCIS. SANGUINEM CRUCIS.
A entidade levantou-se da cadeira e contorcendo seu corpo foi se aproximando de minha mãe, que tentava mas não conseguia sair do lugar. A velha se aproximava cada vez mais. O barulho de seus ossos estalando ecoava pela estrada deserta e escura. Seus olhos ficavam cada vez mais fundos e as palavras continuavam saindo de sua boca. Minha mãe tentava gritar por socorro mas não conseguia. A entidade assustadora chegava cada vez mais perto até que parou poucos metros a frente de minha mãe. A estrada se iluminou quando os olhos da velha brilharam em um tom de marrom claro. Minha mãe conseguiu se mexer, mas agora ia para frente, em direção a luz, sem controle nenhum de seu corpo.
- Sanguinem Crucis. Sanguinem Crucis... - repetia a velha
Sua voz era metálica, como se estivessem arranhando panelas com garfos. Mas também lembrava o som que as cobras fazem. Enquanto a velha falava, era possível ouvir risadas ao fundo. Sua pele era pálida como papel. Suas roupas - um vestido cinza com flores pretas e um véu cor de vinho - pareciam tiradas de séculos atrás. Seus pés sangravam. Foi então que como o vento, a velha desapareceu. Tudo ficou calmo. A estrada continuava escura. Minha mãe conseguia se movimentar, e não sentia mais medo. Ela virou para trás, afim de sair do local e lá estava a velha. A criatura correu em direção a minha mãe e a mesma acordou.
Quando Ana me contou sobre o sonho, fiquei pasmo com a riqueza de detalhes. Ana era a melhor amiga de minha mãe e uma das peças importantes que me ajudou a escrever isso.
Após a onda de pesadelos, minha mãe acordou num pulo, assustada. Já era dia e meu pai não estava mais em casa. Aparentemente, durante a noite, tudo pareceu tranquilo do "lado de fora da minha mãe", meu pai não havia percebido nada.
- Como foi a noite, Mila? - perguntou meu pai, ao chegar do serviço
- Foi normal. - respondeu minha mãe, um pouco agitada
Meu pai não notou. Estava exausto ao final de mais um dia e só pensava em tomar um banho e dormir. Enquanto meu pai estava no chuveiro, minha mãe sentiu algumas dores, nada grave. Ela ficou preocupada comigo mas preferiu não comentar com meu pai.
A hora de dormir chegou outra vez. Minha mãe parecia não lembrar dos pesadelos na última noite e foi dormir sem nenhuma preocupação. Naquela noite nada de anormal ocorreu. Nada de que minha mãe se lembrasse.
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É APENAS UMA LENDA
ParanormalUm crucifixo, uma entidade maligna e um padre. O que eles têm a ver com a morte de minha mãe? Descubra no conto É APENAS UMA LENDA.
