A parte mais irritante era filtrar as frequências. Milhões de canais. A maioria era estática. Algumas emissões de estrelas de nêutrons. E a radiação de fundo do big bang. A jovem já conhecia aqueles pulsos de cor. Poderia até cantar no ritmo deles, se assim o desejasse. Mas música era algo que não existia a bordo da Valquíria, a velha fragata comandada por sua mãe. Após o final do conflito Tarv, em sua condição de heroína de guerra, Danae Mokembo, atual capitã da Valquíria, poderia ter requisitado qualquer comando. Até mesmo a nau capitânea, se assim o desejasse. No entanto, requisitara especificamente aquela, entre centenas de outras naves. Uma lata velha, facilmente superada, sob qualquer critério, por todas as atuais naves da frota. De fato, aquela era a última nave de sua classe ainda em atividade e, se houvesse alguém mentalmente saudável no almirantado, já devia tê-la descomissionado há décadas.
E essa não era a única esquisitice da capitã: Nenhum membro da tripulação permanecia a bordo por mais do que doze meses. Todos eram promovidos e transferidos para naves melhores ou para postos avançados em planetas mais civilizados. Alguns, afortunados, até conseguiam servir na guarnição do sistema solar. Isso valia para todos.
Menos para sua filha.
Sua mãe a batizara com o próprio nome. Ou quase. Danae Vijana Mokembo nascera e fora criada a bordo da Valquíria. E jamais pusera os pés na academia. Sua mãe obtivera permissão especial do alto comando para treiná-la para o oficialato, desde a mais tenra idade. Enquanto outras crianças brincavam, a pequena Danae aprendia a rotina de operações de uma fragata estelar. A menina jamais conheceu seu pai. Ele morrera antes dela nascer e sua mãe nunca lhe disse mais do que isso. Em sua vida, a coisa mais parecida com um pai, ou com uma mãe, foram as dezenas de oficiais que haviam ajudado a treiná-la ao longo daqueles vinte anos. Quando um tripulante era relapso ou insubmisso, era posto a ferros e, em seguida, transferido. Mas, se a filha da capitã hesitasse ou cometesse um erro de avaliação, era esbofeteada diante de todos e confinada a seu alojamento.
Mesmo que tivesse apenas oito anos de idade.
A Jovem Danae crescera a bordo, sem qualquer privilégio e com menos direitos que o resto da tripulação. Todos tinham seu desempenho constantemente avaliado. Suas pontuações contavam para promoções. Aqueles com as melhores contagens eram promovidos mais rapidamente e podiam obter os melhores postos. A jovem, é claro, era exceção. Para não ser punida, ela precisava do dobro ou do triplo da pontuação obtida por oficiais formados na academia. Às vezes, até mais do que isso.
Ela nunca era promovida.
Qualquer um que demonstrasse apreço, afeto, ou simplesmente companheirismo, pela filha da capitã, era sumariamente transferido. Durante seu terceiro estágio na engenharia, ela demorou três décimos de segundo a mais do que devia em uma simulação de desligamento de emergência do reator. O engenheiro-chefe Gupta tentou interceder pela menina. Assim como a capitã da Valquíria, ele era um oficial experiente, em vias de se aposentar, ou de assumir uma cadeira no almirantado, após um breve comando. Mas não foi o que aconteceu.
─Foram apenas três décimos de segundo─ Disse o engenheiro.
─Três décimos podem ser a diferença entre a vida e a morte.
E foi só.
Danae foi punida. O comandante Gupta Foi sumariamente destituído de suas funções, confinado a seu alojamento, e transferido, em apenas 48 horas, tempo o bastante para que encontrassem uma nave da frota nas proximidades. Mesmo tendo entrado em contato com o almirantado durante aqueles dois dias, sua petição foi negada.
─Por Ganesh, mulher. O que foi que a guerra fez a você? ─Disse ele, ao passar pela capitã, a caminho da comporta de ar que o levaria para a Nairóbi, uma nave de exploração que voltava dos sistemas não mapeados.
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Valquíria
Science FictionMãe e filha. Capitã e imediata. Rivais. Uma missão. Uma tragédia. Um segredo nos confins do universo.
