Capítulo Único

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O cheiro de comida queimada se espalhava pela casa junto a uma grande nuvem de fumaça. Cassidy havia queimado o café da manhã que fazia para seu pai naquele dia especial. Isso o fez acordar de mau humor.

━ Que cheiro é esse? O que você fez, garota estúpida? ━ Seu pai, George, gritava raivoso.

━ Eu estava fazendo um café da manhã para você, papai. Mas acabei deixando queimar...

━ Deixe de ser estúpida e vá limpar a bagunça que fez! ━ Cassie achava que a qualquer momento ele soltaria fumaça pelos ouvidos como naqueles desenhos que via quando mais nova.

Toda aquela raiva fez Cassie se desligar novamente. Parar de sentir mais uma vez. Mas ela não fazia a menor ideia de como seu dia terminaria.

Sem um pingo de emoção ou vontade, Cassie arrumou a cozinha e continuou fazendo o café da manhã favorito de seu pai.

━ Não se preocupe, querida. Seu pai acordou de mau humor hoje. ━ Sua doce e gentil mãe a abraçou.

Aquilo a fez se sentir levemente melhor, mas nem a palavra mais doce a faria esquecer as duras palavras que seu pai a falou durante toda sua vida. Mesmo com sua personalidade dúbia e sua falta de sentimentos, aquilo a afetava, minimamente, mas afetava.

E ainda que não ligasse tanto, Cassie tentava dia após dia agradá-lo e arrancar daquele homem duro e agressivo algum elogio. Em seus quinze anos convivendo com ele, Cassie nunca, nem uma única vez, ouviu algo de bom sair da boca de seu pai.

━ Só essa garota inútil consegue fazer algo tão horroroso como isso! Eu não vou comer essa porcaria! ━ Sua grave voz ecoava por toda a casa.

━ Querido, não faça essa desfeita. Sua filha fez esse café da manhã para você com todo carinho. É dia dos pais, só tente ser minimamente gentil com ela.

━ Não me fale o que fazer, mulher! Jogue essa porcaria fora e me faça um café da manhã decente! ━ Ele praticamente jogou o prato em cima de Regina.

Cassie observava tudo da cozinha, sentindo cada vez menos, ficando mais e mais anestesiada de tudo aquilo.

Quando a campainha toca, ela logo corre até a porta. Era aquele homem novamente. Alto, forte e assustador. Bom, essa seria a descrição usada por qualquer outra garota de quinze anos, mas Cassie o achava alto, forte e com cara de idiota. Eram poucas as coisas que assustavam ou intimidavam Cassidy.

Sem dizer uma única palavra ou tirar aquela carranca da cara, o homem entrou na casa e se dirigiu até o senhor e a senhora O'Niell.

━ Já sabem o que vim fazer aqui... ━ Aquela não foi a primeira vez que Cassie o ouviu dizer a mesma frase.

━ Cassidy, querida. Vá para seu quarto. E não saia de lá até eu ir te buscar.

E ela foi. Como sempre fazia. E esperou pacientemente.

━ Eu dei o recado da última vez, e minha ordem foi não deixar mais recados. ━ A estrondosa voz do homem sem nome alcançou os ouvidos de Cassie através da porta.

━ E eu já disse o que tinha para dizer! Não devo nada a vocês!

Com o ouvido grudado na porta de seu quarto, Cassie escuta um barulho alto.

━ Não! ━ Era a voz de sua mãe. Alguns segundos depois a porta se abre.

━ Dentro do closet, Cassie! Fique dentro do closet! E não faça barulho. Agora! E lembre-se que mamãe te ama... ━ As lágrimas começavam a escorrer pelo cansado e triste rosto daquela tão amável mulher.

Cassidy assentiu e se enfiou para o fundo do closet, encoberta por grossos e caros casacos de frio.

━ Abra essa porta! Se não vão pagar a dívida com seu dinheiro, vão pagar com sua vida! Seu marido já me pagou o que devia... ━ Ao ouvir o que aquele brutamontes disse, Cassie sentiu um alívio. Ela sabia que deveria se sentir triste, mas só conseguia sentir alívio. Sentia também um leve pesar por sua mãe que, ao contrário de seu pai, era uma boa pessoa.

Tudo aconteceu muito rápido. Um estrondo, um grito, um tiro. Uma vontade enorme de sair e observar tudo a invadiu. Já podia sentir o cheiro de sangue invadindo suas narinas. Ouviu passos... Passos diferentes.

━ Idiota! Yo disse o dinero primeiro! Depois podría matarlos! ━ Cassie nunca havia ouvido essa voz antes, mas sentia uma estranha sensação de conforto ao ouvi-la. ━ Onde está la hija? A mató também?

Num impulso, Cassie saiu do closet e parou em frente ao homem desconhecido. Seu cabelo ruivo bagunçado e suas sardas a faziam parecer uma garota fraca e indefesa. Sem dizer uma única palavra Cassie ficou ali, parada, encarando aquele homem que podia matá-la a qualquer momento. O primeiro homem, o capanga, mirou a arma em sua direção, pronto para atirar.

━ Abaixe a arma, Adolfo! Quero la chica viva!

━ Porque Ramón? Essa garota não vai servir para nada! Melhor matá-la de uma vez!

━ Eu a observei Cassidy... A vi fazendo coisas que una chica frágil e boazinha no faria. Acho que lembra o motivo de seu pai ter derrubado sua casa da árvore. E de não querer te dar um novo bichinho depois dos dois gatos que acidentalmente morreram... Então quero que venha comigo. Vou torná-la na minha melhor arma. E acho que agora não tem nada que a prenda aqui...

━ E o que eu ganho com isso?

━ Tudo que seu pai te dava e mais... Eu sei que ele tinha dinheiro para pagar o que me devia, mas preferia usar com a filhinha dele. Mesmo sendo um péssimo pai. Ele devia achar que presentes caros o fariam um pai melhor...

━ Bom, eu não ligo... Só preciso de alguém para cuidar de mim. Já que você matou meus pais. Se me der um lugar para viver já vai ser lucro...

━ Ótimo. Mas vou ter que mudar seu nome... agora se llamará Áster. Áster Rodriguez.

O Despertar da EstrelaWhere stories live. Discover now